De acordo com Lyons, (1970, pg.11), Chomsky é uma autoridade da gramática, no entanto, a maior parte dos estudiosos não aceitaram sua teoria da gramática transformativa presente em sua obra “Syntactic Structures”. Ainda segundo este autor, existem muitas “escolas” de linguística, porém a vertente “transformativa” ou “chomskyana”, independente de estar certa ou errada, é “inegavelmente” a de maior influência e ocupa uma posição central.
A linguística, como aspirante a ciência, não está apta a propor uma teoria semântica geral que proporcione a compreensão do funcionamento da linguagem (RUWET&CHOMSKY, 1966, pg.27, 42). O fracasso desta “ciência” é evidenciado pelas seguintes passagens, repare que Chomsky alude à possibilidade de uma teoria mais simples e clara (ver MOTA, 2020a):
"(...) julgo que a teoria linguística tem até agora fracassado ao querer inteirar-se com precisão da noção de 'gramática'."(RUWET&CHOMSKY, 1966, pg.66,67).
"Quando se constrói a gramática de uma língua particular, uma das decisões a tomar em presença de cada classe de frases é saber se as consideraremos nucleares ou derivadas. Penso que não existe nenhum processo mecânico geral que permita resolver esta questão, assim como não existe, que eu saiba, nenhum processo mecânico geral.(...) É bem possível que outros processos e outras formas de representação (outros níveis linguísticos), de um tipo completamente diferente, se revelem necessários à elaboração de um método simples e esclarecedor para derivar todas as frases gramaticais das línguas naturais.(...) Se um processo geral e mecânico, que permitisse construir gramáticas do tipo apropriado, a partir dos dados brutos, pudesse ser elaborado (e nós estamos muito longe disso, segundo creio)..." (RUWET&CHOMSKY, 1966, pg.84,85,109, 118,119).
Em seu artigo "Uma concepção transformacional da sintaxe" Chomsky realiza uma autocrítica que constitui mais um ponto favorável à relativização da importância de seus estudos:
"Com efeito, há exceções para uma grande quantidade de regras de transformação dadas acima, talvez mesmo para todas(...)" (RUWET&CHOMSKY, 1966, pg.116).
Em "A noção de regra de gramática", Chomsky confirma a tese de que suas pesquisas não podem atingir um nível de profundidade desejável, pois nem sequer as ideias fundamentais são abordadas de forma rigorosa:
"A formulação precisa destas regras exigiria uma análise de noções fundamentais que iria muito além da exposição informal acima delineada, e aliás até das versões mais precisas que foram dadas antes." (RUWET&CHOMSKY, 1966, pg.150).
"(...) quase todas as questões que dizem respeito à capacidade generativa das gramáticas transformacionais (...) continuam inteiramente em aberto, e, de fato, não poderão estabelecer-se enquanto os conceitos em jogo não forem mais esclarecidos." (RUWET&CHOMSKY, 1966, pg.155).
Estes fatos constituem uma grande decepção, pois, segundo Lyons (1970, pg.13): “O sistema de gramática transformativa de Chomsky foi desenvolvido (...) para propiciar precisa descrição matemática de alguns dos mais notáveis traços da linguagem."
"O estudo das propriedades formais e da capacidade gerativa dos vários tipos de gramática se faz como ramo da matemática ou da lógica, independentemente de sua relevância para a descrição das línguas naturais.(...) Até agora, a investigação matemática acerca da gramática transformativa, iniciada por Chomsky, só conseguiu progresso relativamente reduzido." (LYONS, 1970, pg.63)
De fato, Chomsky apresenta um trabalho repleto de detalhes e com um certo trejeitos de ciência exata. Porém, conforme o próprio Lyons afirma (1970, pg.15, ver pg.82), Chomsky é mais famoso devido seus escritos políticos do que por sua contribuição à compreensão da estrutura da linguagem. Na verdade, Chomsky mergulhou num ramo do conhecimento que não é muito bem estruturado e, além disso, utilizou-se de sua frágil estrutura. Portanto, era de se esperar que suas teorias apresentassem sérias deficiências.
"Cabe assinalar que é também informal o tratamento da gramática gerativa em ‘Syntactic Structures’ e na maioria dos trabalhos mais divulgados de Chomsky." (LYONS, 1970, pg.46)
De acordo com Lyons, (1970, pg.46), em Syntactic Structures, Chomsky apresenta três modelos para a descrição da linguagem, o primeiro deles ele demonstrou ser insuficiente para a análise do inglês e demais línguas naturais. O segundo seria muito mais satisfatório (pg.54), porém, Chomsky demonstrou, em seguida, que ele também possuía limitações (pg.57). Diante das dificuldades, ele assume o terceiro modelo "a gramática transformativa" como o melhor (pg.60, 76). Chomsky tentou melhorar seu sistema e, em 1965, na obra Aspects of the Theory of Syntax, ele apresentou uma teoria ampliada da gramática transformativa (LYONS, 1970, pg.46), ao que tudo indica, a mesma também apresenta limitações, pois baseia-se no terceiro modelo.
Lyons (1970, pg.103) afirma que o linguista, que desenvolve uma gramática gerativa de uma língua específica, deseja caracterizar todas suas sentenças. Porém, reforça a tese de que este é um objetivo até agora não alcançado para nenhuma linguagem natural.
Apesar dos problemas expostos, Chomsky acredita que há uma gramática universal: uma estrutura partilhada por todas as línguas (LYONS, 1970, pg.104). Tal fato pode ser constatado se considerarmos que a maioria dos seres humanos são compostos por sentidos, psicologia e fisiologia equivalentes, tais fatores gerariam línguas cuja estrutura reflete a mesma realidade, portanto as línguas possuem um núcleo comum.
"(...) registrei que devemos, pelo menos, encarar a possibilidade de que a teoria da gramática gerativa de Chomsky seja um dia abandonada, por consenso dos linguistas, como irrelevante para a descrição das línguas naturais. Devo acrescentar que pessoalmente acredito (e muitos linguistas partilharão dessa crença) que ainda que se revele falha a tentativa de Chomsky para formalizar os conceitos empregados na análise das línguas, essa tentativa terá aumentado amplamente nossa compreensão daqueles conceitos(...)"(LYONS, 1970, pg.115)
AS IDEIAS DE CHOMSKY - JOHN LYONS - TRADUÇÃO DE OCTANNY SILVEIRA DA MOTA E LEONIDAS HEGENBERG - EDITORA CULTRIX - SÃO PAULO - 3ª EDIÇÃO - 1970
DICIONÁRIO DE MATEMÁTICA- LUIZ F. CARDOSO - EDITORA EXPRESSÃO E CULTURA - 2001 - RJ
A GRAMÁTICA GENERATIVA - NICOLAS RUWET, NOAM CHOMSKY - TRADUÇÃO ISABEL PASCOAL - EDIÇÕES 70 - LISBOA - 1966