O Círculo de Viena
De acordo com https://iep.utm.edu/viennacr/ (consultado em 29/7/21 às 8:49), o Círculo de Viena foi um grupo de filósofos organizado por Moritz Schlick em 1922. O Círculo contou com a participação de Rudolf Carnap, K. Gödel, Wittgenstein, dentre outros. O Círculo de Viena foi muito ativo na publicidade do positivismo lógico, contando com diversos congressos de epistemologia e filosofia da ciência sediados em localidades economicamente privilegiadas. O Círculo de Viena se dispersou quando o nazismo chegou ao poder, muitos deles emigraram para os EUA. Schlick decidiu permanecer na Áustria, mas em 1936 foi morto na Universidade de Viena por um estudante simpatizante do nazismo.
Devido Moritz Schlick ter liderado o Círculo de Viena sob a influência de Wittgenstein (CARNAP et al, 1975, pg.128), consideramos importante estudarmos a seu respeito durante boa parte deste capítulo, mas dedicaremos um capítulo separado para Wittgenstein. Nota-se, inicialmente, que sua visão a respeito da filosofia tradicional era negativa, pois, segundo ele, ela chegara a um estado caótico devido sua falta de rigidez para selecionar as questões que realmente faziam sentido, além disso, ela também utilizaria métodos diferentes das demais ciências (SCHLICK et al, 1975, pg.49), o que, de alguma forma, contribuia para sua desorganização. Apesar desta postura crítica, ele acabou recorrendo aos métodos que ele mesmo se opunha ao assumir que a crítica de Kant contra a “prova ontológica da existência de Deus” possuía fundamento (SCHLICK, 1975, pg.58). Ele admitiu, sem qualquer prova ou raciocínio lógico, que a existência não pode ser uma propriedade. Se admitirmos que uma propriedade é qualquer coisa que se refira a uma coisa, então a existência seria uma propriedade, pois ela se aplica a qualquer coisa existente. Se Deus existir, então ela será uma propriedade a Ele relacionada ou um será predicado: que é a mesma coisa. Apesar de cometer este erro, devo concordar com sua ideia básica a respeito da existência (se isolada do que foi dito acima). Tenho tratado o conceito de existência de forma reiterativa em meus escritos, pois o vejo como uma fonte constante de enganos e definições imprecisas que acabam gerando diversos problemas e pseudo conclusões, diante disto, constatei que Schlick chegou a uma conclusão condizente com aquela que apresentei (MOTA 2020a):
“’Existe x’ equivale a dizer que ‘x é real’, que ‘x é uma realidade’” (SCHLICK et al, 1975, pg.58)
Apesar desta convergência de pensamentos, Schlick comete mais dois enganos relacionados à existência:
1°- Ao dizer que a frase de Descartes “eu existo”, em referência aos conteúdos da consciência, é “completamente desprovida de sentido, não exprime nada, não contém conhecimento algum” (SCHLICK, 1975, pg.61). Notamos que, se a fala de Descartes não exprime nada, então não conseguiríamos nem ao menos falar sobre ela. Esta declaração é uma crítica totalmente desprovida de argumentos que se assemelha a um ataque pessoal:
“Não cabe dúvida alguma de que Descartes não adquiriu nenhum conhecimento com o seu enunciado, senão que depois dele permaneceu tão inteligente ‘com antes’”(SCHLICK, 1975, pg.61)
2°- Schlick defendeu, de forma ríspida, que só podemos discutir sobre coisas cuja existência pode ser verificada (verificacionismo). Portanto, seu outro engano a respeito da existência consiste em limitá-la ao que pode ser verificado por nossos sentidos ou por extensões físicas (artificiais) destes:
“Quem, não obstante isto, acredita em tal coisa, ou melhor, quem pensa acreditar nela, só pode fazê-lo calando-se.” (SCHLICK, 1975, pg.68)
Esta segunda questão relaciona-se com a afirmação de que “limitar-se ao que é ‘dado’ (pode ser verificado) é um fundamento do positivismo lógico” (CARNAP et al, 1975, pg.197). Apesar de defender este princípio, Schlick foi um crítico de sua formulação:
“Entretanto, o mencionado princípio raramente foi formulado com clareza dentro das referidas correntes, sendo com frequência mesclado com tantas proposições inaceitáveis, que se impõe uma purificação lógica do mesmo.” (SCHLICK et al, 1975, pg.68, 69)
OS PENSADORES XLIV – MORITZ SCHLICK, RUDOLF CARNAP, KARL POPPER – 1ªED - ED. ABRIL - SÃO PAULO – 1975