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quarta-feira, 28 de julho de 2021

L3: Wittgenstein

Wittgenstein

Algumas pessoas consideram Ludwig Wittgenstein (1889-1951) o maior filósofo do século XX, ele desempenhou um papel central, embora controverso, na filosofia analítica do século XX

https://plato.stanford.edu/entries/wittgenstein/Ludwig Wittgenstein (consultado em 29/07/21 às 10:20), portanto, é vital nos aprofundarmos em seu pensamento para constatar se há algum vestígio de algo que possa ser aproveitado para justificar a filosofia analítica, o positivismo lógico ou a filosofia em si.

Faremos uma resenha do livro “Os Pensadores - Wittgenstein” citando apenas as páginas, da mesma forma que fizemos com Russell. Acredito que isto tornará a leitura mais objetiva e fundamentará as observações pontualmente.

Wittgenstein sentia-se deprimido devido a um sentimento de proximidade da morte que o impediria de concluir seus trabalhos em lógica, apelou para várias seções de hipnose para buscar respostas mais claras sobre lógica (pg.6).

Ele resumiu seu objetivo na seguinte frase: “todo meu trabalho consiste em explicar a natureza das sentenças”, em particular, admitia que havia um paralelismo (um tipo de isomorfia) completo entre o mundo dos fatos reais e as estruturas da linguagem, as sentenças possuiriam a mesma “forma” da realidade que representam (pg.9).

“(...) algo semelhante a uma última análise das nossas formas de linguagem, portanto uma forma de expressão totalmente decomposta(...) Isto se expressa na questão relativa à essência da linguagem(...)”(pg.62).

Esta visão está de acordo com a concepção de linguagem como uma representação da realidade que apresentei no início deste livro.

“Os temas do Tractatus estão agrupados em 7 proposições com nível crescente de complexidade”(pg.6)

1- O mundo é tudo o que ocorre;
2- O fato é o subsistir de estados de coisas;
3- Pensamento é a figuração lógica dos fatos;
4- O pensamento é a proposição significativa;
5- A proposição é uma função de verdade das proposições elementares;
6- A forma geral da função de verdade é [p,ξ,Ñ(ξ)];
7- O que não se pode falar, deve-se calar.

Entre 1 e 2 há uma redundância, pois “tudo o que ocorre” é o conjunto dos “estados de coisas”. O mesmo problema ocorre entre 3 e 4, pois “figuração lógica” é sinônimo de “proposição significativa” já que coisas sem significado são coisas sem lógica. Wittgenstein nos diz:

“Algo vermelho pode ser destruído, mas o vermelho não, e por isso a significação da palavra ‘vermelho’ é independente da existência de uma coisa vermelha”(pg.49).

Esta dedução, relacionada à questão dos universais, está incorreta, pois o vermelho não existiria se coisas vermelhas não existissem: se não houvesse a frequência e comprimento de onda que caracterizam o vermelho, não teríamos objetos refletindo a cor vermelha, portanto ele não existiria.

As proposições 5 e 6 aludem à concepção da lógica moderna de que há fórmulas atômicas à partir das quais originam-se fórmulas compostas, ele cita a visão expressa por Sócrates sobre o fato de que a única coisa possível a se fazer com os elementos primitivos seria nomeá-los (pg.43): estes seriam os “individuals” de Russell e os “objetos” de Wittgenstein. A expressão 7 parece legitimar o princípio verificacionista do empirismo lógico, em minha opinião, a forma como foi escrito implica uma atitude delimitadora para a obtenção do conhecimento. Acredito que, após estas constatações, é simplesmente impossível consertar os fundamentos do “Tractatus” e ele mesmo apoia esta visão ao ter dito, mais tarde, que o Tractatus é “extremamente insatisfatório”(pg.13). A teoria de Wittgenstein baseia-se na ideia de que a linguagem representa a realidade (pg.90), porém, como vimos acima, ele não pôde desenvolver uma teoria adequada devido sua incompreensão das sutilezas da linguagem, o que o levou a cometer erros e redundâncias. Apesar disso, sua visão a respeito da contradição como algo impossível (pg.11), que não representa a realidade, está correta. Isto serve de apoio para refutar Gödel que construiu sua teoria sobre uma contradição.

Wittgenstein afirma que nem as tautologias, nem as equações matemáticas dizem algo sobre o mundo e que todos os acontecimentos são acidentais. Além disso, para ele, o que há no mundo não seria nem bom nem mal e que estes seriam conceitos existentes apenas em relação ao sujeito (pg.12). De fato, a matemática trabalha com propriedades genéricas, os próprios números expressam isto, pois desconsideram as características de coisas diferentes limitando-se às suas quantidades. Sua concepção de bem e mal também está correta, são conceitos relativos (MOTA, 2020a), porém sua ideia de que todos os acontecimentos são acidentais carece de elementos que a sustentem.

Acredito que o fato de haver tantas inconsistências levou Wittgenstein a abandonar sua orientação logicista que caracteriza o “Tractatus”. Por exemplo: ele afirma que “existe com certeza o indizível” (pg.13), porém, esta frase diz algo sobre o indizível. Surgiu um “segundo Wittgenstein” que dizia ser preciso desfazer-se de superstições atreladas à linguagem, portanto a principal tarefa da filosofia deveria ser a eliminação dos feitiços que a linguagem poderia fazer contra o pensamento.

O 2º Wittgenstein afirma que não cabe questionar sobre o significado das palavras, mas apenas sobre suas funções práticas e aquilo que conhecemos por linguagem é, na verdade, um conjunto de “jogos de linguagem”. Além disso, para ele, a linguagem não poderia ser unificada com uma única estrutura lógica e formal (pg.14, 27), que é algo que demonstrei ser inválido (MOTA, 2020a). Wittgenstein criticou a postura dos filósofos que, para ele, deixaram-se levar pelo desejo de descobrir a essência da linguagem: algo oculto por detrás dela. A filosofia deveria mudar esta postura, seu objetivo deveria ser apenas ensinar aos homens como ver as questões, ela não pode explicar nada nem deduzir coisa alguma (pg.15). Devemos concordar com esta proposta, pois, de acordo com o que temos visto, a filosofia, realmente, não é capaz de explicar ou deduzir nada.

Alguns admiradores de Wittgenstein o consideram o pai da filosofia linguística (pg.16). Diante do que já vimos, somos levados a ver este ramo da filosofia como algo completamente destinado ao fracasso. Seria bom ver o que o próprio Wittgenstein ruminou a respeito disso, para que não cometamos nenhum falso testemunho:

“Após várias tentativas fracassadas para condensar meus resultados num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que poderia escrever permaneceriam sempre anotações filosóficas, que meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava contra a tendência natural, forçá-los em uma direção (...) As anotações filosóficas deste livro são, por assim dizer, uma porção de esboços de paisagens que nasceram nestas longas e confusas viagens” (pg.25).

“Com efeito, desde que há dezesseis anos comecei novamente a me ocupar de filosofia, tive de reconhecer os graves erros que publicara naquele primeiro livro (...) Gostaria realmente de ter produzido um bom livro. Tal não se realizou, mas passou-se o momento em que poderia tê-lo corrigido - Cambridge, Janeiro de 1945” (pg.26).

Finalizamos este capítulo com o trecho que atesta tudo o que foi argumentado aqui:

“Aqui encontramos a grande questão que está por trás de todas essas considerações. Pois poderiam objetar-me: “Você simplifica tudo! Você fala de todas as espécies de jogos de linguagem possíveis, mas em nenhum momento disse que o que é essencial do jogo de linguagem, e portanto da própria linguagem. O que é comum a todos esses processos e os torna linguagem ou partes da linguagem. Você se dispensa pois justamente da parte da investigação que outrora lhe proporcionara as maiores dores de cabeça, isto é, àquela concernente à forma geral da proposição e da linguagem. E isso é verdade.” (pg.52).


Apenas citar: https://plato.stanford.edu/entries/carnap/, consultado em 27/07/21 às 9:00

Os Pensadores - Wittgenstein - Tradução de José Carlos Bruni - Editora Nova Cultural - 1999 - São Paulo