terça-feira, 10 de agosto de 2021

L3: Linguística

Linguística


“ (...) toda atividade da ordem do conhecimento ou da prática tem uma componente de linguagem. (...) Assim, de múltiplas maneiras as ciências da linguagem intervêm como preliminares de toda a ciência das coisas ou do homem.” (MOULOUD, 1974, pg.208,209 - ver pg.8)


Neste capítulo veremos que a linguística é uma ciência (ou pretensa ciência) cujos resultados não estão à altura de seu objeto de estudo. Sem a linguagem não poderíamos questionar, contar histórias nem virtualizar o real (LÉVY, 1996, pg.72,73), portanto deveríamos nos esforçar a entender sua estrutura subjacente por completo.

De acordo com Ruwet (1966, pg. 15 apud Chomsky&Miller, 1963, pg.277) "as pessoas mais estúpidas aprendem a falar, mas nem os macacos mais brilhantes conseguem fazê-lo", este fato demonstra que não há relação intrínseca entre inteligência e linguagem por um lado, pois espera-se que todos "inteligentes" dominem a linguagem, mas que nem todos que dominem a linguagem sejam inteligentes. Langacker (1980, pg.20,21), confirma que não há casos de crianças "normais" que não adquiriram uma linguagem quando esta estava disponível para o aprendizado, este autor também nos diz que a aquisição da linguagem é específica da espécie humana. Chegou-se a provar, por meio de experimento, que um chipanzé, criado exatamente como uma criança, não foi capaz de adquirir "nada que apresente qualquer semelhança mínima com os sistemas linguísticos"(LANGACKER,1980, pg.248), nem evidência há de que possa surgir esta capacidade em outra espécie. Desta forma, os animais não desenvolveriam linguagem, pois não possuem estrutura cerebral inata para isto. 

A linguagem é tão democrática e acessível que, apesar de ser predominantemente sonora, muitos surdos e mudos são capazes de se comunicar de maneira efetiva e, inclusive, muitas pessoas com deficiências mentais graves podem se comunicar oralmente. Langacker (1980, pg.22) cita o caso de Helen Keller que, mesmo sendo cega e surda, conseguiu apropriar-se da linguagem. Toda criança pode adquirir uma linguagem quaisquer que sejam sua etnia, classe social, religião ou nacionalidade.

Não existe relação entre o desenvolvimento de um povo e a complexidade de sua linguagem. As linguagens "primitivas" podem ter mais complexidade e poder expressivo do que qualquer língua europeia:


"(...)qualquer coisa que se pode dizer numa língua, pode ser dita em qualquer outra língua, embora talvez mais desajeitadamente. É totalmente falso alegar que as línguas 'primitivas' (...) não podem expressar ideias abstratas.(...) não há línguas primitivas, não há línguas corrompidas. As línguas se modificam, mas não decaem.(...) A ideia de uma língua pura é ilusória." (LANGACKER, 1980, pg.25)


Também é ilusório afirmar que diferenças estruturais entre linguagens (e também entre dialetos) podem influenciar na qualidade do pensamento de um povo em relação ao outro. Kant pensava que representações são cópias de coisas em nossas mentes (SILVA, 2007, pg.127), Saussurre acreditava que toda representação realiza-se dentro de sistemas ordenados e consistentes de palavras (MOULOUD, 1974, pg.209). Já que o conjunto de coisas a serem representadas não é muito diferente para todos os povos, espera-se que as diferentes linguagens surgiram para suprir a necessidade de expressar representações equivalentes, logo todas as linguagens seriam equivalentes. Portanto, quem diz que só é possível filosofar em alemão acaba por sucumbir em um tipo de arianismo nazista intelectual.


 "(...) nunca foi apresentada uma evidência para apoiar essa afirmação. Nunca se provou que as hipóteses grandiosas sobre a visão do mundo sendo determinada pela estrutura de cada língua são baseadas em fatos." (LANGACKER, 1980, pg.49,50)


Após estas considerações, podemos voltar nossa atenção para questões mais fundamentais em relação à “estrutura” da linguagem. O que a linguística teria a nos dizer a respeito de seu objeto de estudo? Haveria uma compreensão completa a respeito de sua estrutura e fundamentos? - Minhas pesquisas constataram que ela está em uma situação desfavorável e, ao que parece, isto é consenso:


"Convirá, talvez, advertir o leitor (...) de que há certa confusão e incoerência terminológica no campo da linguística.(...) para língua alguma, contamos com uma gramática que possa dizer-se próxima de completa. Isso é fato inegável."(LYONS, 1970, pg.25,41)


“E, na minha opinião, é duvidoso que se tenha o direito de esperar que os linguistas vão eventualmente descobrir uma estrutura gramatical suficientemente rica e universal (HAACK, 2002, p. 56)”.


"A linguagem é pouco conhecida (...) nem mesmo linguistas profissionais podem afirmar compreendê-la totalmente.(...) Os livros de gramática tradicional não estão de fato errados, mas partilham com todas as outras tentativas de descrição linguística, inclusive as mais avançadas, a falha inevitável de serem incompletos.(...) sem dúvida, nenhuma frase de qualquer língua humana, jamais foi completamente descrita, e isto continuará a ser um fato ainda por muitas décadas.(...) Sabemos muita coisa sobre a linguagem, mas apesar de séculos de investigação séria, não poderíamos descrever exaustivamente a estrutura de qualquer língua, mesmo a mais intensamente estudada. Isso, porém, é essencialmente o que faz a criança (...) numa idade em que não é ainda capaz de raciocínio lógico e analítico." (LANGACKER, 1980, pg.11,17,151,249)


Apesar desta situação desconfortável, podemos encontrar definições genéricas e esforços sinceros para o desenvolvimento da linguística, Chomsky, por exemplo, define uma linguagem como “um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, cada uma de comprimento finito e formada a partir de um conjunto finito de símbolos”. (MORTARI, 2016, p.54, apud CHOMSKY, 1957, p. 13), no entanto, como veremos mais tarde, seus esforços não tiveram sucesso. Quine (2011, pg. 75) nos diz que o gramático formula leis a respeito da concatenação de símbolos os quais devem representar uma semântica plausível, os limites para os quais isto se aplica podem não ser muito nítidos, mas isto não significa que não existam regras de construção que as pessoas devam aprender (LANGACKER, 1980, pg.41), muitas vezes estas formalizações se apresentam de modo pouco atrativo e isto destoa do fato de que crianças são fluentes em linguagem oral (LÉVY, 1996, pg.83). Talvez este exemplo nos mostre que as formalizações rígidas, sobrecarregadas de simbolismos e classificações problemáticas, na verdade, expressam algo óbvio e acessível de forma pedante e inacessível. Outro fato que ilustra bem esta situação é que as crianças encontram muito mais dificuldade com a aritmética do que com a linguagem falada. 

Vimos que não há línguas superiores ou inferiores e que todas elas podem expressar qualquer conceito, independente de seu grau de complexidade, portanto é de se esperar que todas possuam uma estrutura fundamental comum, conforme argumentei (MOTA, 2020a).


"(...) um exame mais profundo revelará serem as línguas gramaticalmente muito semelhantes entre si.(...) A essa altura já deve estar claro que a diversidade linguística superficial esconde muitas vezes a uniformidade subjacente (...) todas as línguas têm um esquema básico semelhante." (LANGACKER, 1980, pg.49,252,258)



A LINGUAGEM E SUA ESTRUTURA - RONALD W. LANGACKER - ED. VOZES - 1980 - RIO DE JANEIRO 4ªEDIÇÃO


20.000 LÉGUAS MATEMÁTICAS - UM PASSEIO PELO MISTERIOSO MUNDO DOS NÚMEROS - A.K. DEWDNEY -JORGE ZAHAR -2000 - RIO DE JANEIRO


LINGUAGEM E ESTRUTURAS - NÖEL MOULOUD - LIVRARIA ALMEDINA - COIMBRA - 1974 PORTUGAL


ÁLGEBRA MODERNA - COLEÇÃO SCHAUM - EDITORA MCGRAW-HILL DO BRASIL LTDA - FRANK AYRES JR - 1974 - SÃO PAULO


O QUE É VIRTUAL? - PIERRE LÉVY - EDITORA 34 - 1996 - SÃO PAULO