Arquivo do blog

sábado, 23 de outubro de 2021

Linguística, Semiótica e Chomsky têm fundamento?

 1. #LINGUÍSTICA

(…) as linguagens são criações do homem.”(COSTA, 2008, p. 40)

Mouloud (1974, p.8, 208-209), sustenta que qualquer atividade que envolva o conhecimento possui elementos linguísticos que antecipam “toda ciência das coisas ou do homem”, Costa (2008, p.15-16, 38) e Almeida (2017, p.69, 109) reforçam este pensamento, ele nos diz que a racionalidade expressa-se mediante as palavras, portanto, sem elas o pensamento não poderia ser compartilhado efetivamente. Ainda, segundo o autor, isto estender-se-ia sobre a Matemática, pois tal fato seria de vital importância para o entendimento do pensamento racional e, por mais técnico ou complicado que seja, seria possível descrevê-lo com palavras.



A linguagem e nosso modo de pensar estão estreitamente imbicados, são, em certo sentido, uma mesma coisa.” (ALMEIDA, 2017, p. 172, apud Hoebel, 1973, p.44)


Suponha, por absurdo, que exista um x não expressável. Como acabamos de expressar o inexpressável com x, tem-se um absurdo. Logo, tudo é expressável e o conjunto das coisas inexpressáveis é vazio. Sem a linguagem não poderíamos questionar, contar histórias nem virtualizar o real (LÉVY, 1996, p.72-73), portanto deveríamos nos esforçar para entendermos sua estrutura subjacente por completo. Em seu artigo “Matemática e Linguística”, Ruth Portanova afirma: “(...) a linguística e a matemática possuem raízes comuns” (IBAÑOS&SILVEIRA, 2002, p. 285, apud PORTANOVA), no entanto, é claro que ambas ciências seguem caminhos opostos no que tange ao rigor de seus métodos. Almeida (2017, p. 70) confirma este pensamento ao comentar o caso de Carnap que afirmava que as "entidades matemáticas” têm teor essencialmente linguístico, apesar de sua aparência distinta e peculiar. Portanto, todo o pensamento racional, inclusive o mais rebuscado e técnico, está submetido ao poder expressivo da linguagem natural, isto a coloca no patamar mais elevado de importância para qualquer tipo de atividade intelectual. No entanto, deve-se citar, que Frege (1892) e Russell (1905) diziam que a linguagem natural não seria capaz de representar o mundo de forma lógica e precisa (IBAÑOS&SILVEIRA, 2002, p.320) o que, para mim, representa o fato destes lógicos não terem compreendido sua estrutura fundamental. 



De acordo com Ruwet (1966, p. 15, apud CHOMSKY&MILLER, 1963, p.277): "(…) as pessoas mais estúpidas aprendem a falar, mas nem os macacos mais brilhantes conseguem fazê-lo", este fato demonstra que não há relação intrínseca entre inteligência e linguagem por um lado, pois espera-se que todos "inteligentes" dominem a linguagem, mas que nem todos que dominem a linguagem sejam inteligentes. Langacker (1980, p.20-21), confirma que não há casos de crianças "normais" que não adquiriram uma linguagem quando esta estava disponível para o aprendizado, este autor também nos diz que a aquisição da linguagem é específica da espécie humana o que, conforme veremos, concorda com Chomsky. Chegou-se a provar, por meio de experimento, que um chimpanzé, criado exatamente como uma criança, não foi capaz de adquirir "nada que apresente qualquer semelhança mínima com os sistemas linguísticos" (LANGACKER,1980, p.248), nem evidência há de que possa surgir esta capacidade em outra espécie. Desta forma, os animais não desenvolvem linguagem, pois não possuem estrutura cerebral inata para isto. 

A linguagem é tão democrática e acessível que, apesar de ser predominantemente sonora, muitos surdos e mudos são capazes de se comunicar de maneira efetiva e, de fato, muitas pessoas com deficiências mentais graves podem se comunicar oralmente. Langacker (1980, p.22) cita o caso de Helen Keller que, mesmo sendo cega e surda, conseguiu apropriar-se da linguagem. Toda criança pode adquirir uma linguagem quaisquer que sejam sua etnia, classe social, religião ou nacionalidade.

Não existe relação entre o desenvolvimento de um povo e a complexidade de sua linguagem. As linguagens "primitivas" podem ter mais complexidade e poder expressivo do que qualquer língua europeia, os preconceitos linguísticos devem ser abandonados. Portanto, quem diz que só é possível filosofar em alemão acaba por sucumbir em um tipo de arianismo nazista intelectual:



"(...)qualquer coisa que se pode dizer numa língua, pode ser dita em qualquer outra língua, embora talvez mais desajeitadamente. É totalmente falso alegar que as línguas 'primitivas' (...) não podem expressar ideias abstratas.(...) não há línguas primitivas, não há línguas corrompidas. As línguas se modificam, mas não decaem.(...) A ideia de uma língua pura é ilusória." (LANGACKER, 1980, p.25)



Também é ilusório afirmar que diferenças estruturais entre linguagens (e também entre dialetos) podem influenciar na qualidade do pensamento de um povo em relação ao outro. Kant pensava que representações são cópias de coisas em nossas mentes (SILVA, 2007, p.127), Saussurre acreditava que toda representação realiza-se dentro de sistemas ordenados e consistentes de palavras (MOULOUD, 1974, p.209). Portanto, já que o conjunto de coisas a serem representadas pouco difere entre todos os povos, espera-se que as diferentes linguagens surgiram para suprir a necessidade de expressar representações equivalentes, logo todas as linguagens seriam equivalentes. Não há línguas superiores ou inferiores, todas podem expressar qualquer conceito, independente de seu grau de complexidade, portanto é de se esperar que todas possuam uma estrutura fundamental comum, conforme argumentei (MOTA, 2020a).



"(...) um exame mais profundo revelará serem as línguas gramaticalmente muito semelhantes entre si.(...) A essa altura já deve estar claro que a diversidade linguística superficial esconde muitas vezes a uniformidade subjacente (...) todas as línguas têm um esquema básico semelhante." (LANGACKER, 1980, p.49, 252, 258) 



 "(...) nunca foi apresentada uma evidência para apoiar essa afirmação. Nunca se provou que as hipóteses grandiosas sobre a visão do mundo sendo determinada pela estrutura de cada língua são baseadas em fatos." (LANGACKER, 1980, p.49, 50)



Após estas considerações, podemos voltar nossa atenção para questões mais fundamentais em relação à “estrutura” da linguagem. O que a linguística teria a nos dizer a respeito de seu objeto de estudo? Haveria uma compreensão completa a respeito de sua estrutura e fundamentos? - Minhas pesquisas constataram que ela está em uma situação desfavorável e, ao que parece, isto é consenso:



"Convirá, talvez, advertir o leitor (...) de que há certa confusão e incoerência terminológica no campo da linguística.(...) para língua alguma, contamos com uma gramática que possa dizer-se próxima de completa. Isso é fato inegável."(LYONS, 1970, p.25, 41)



E, na minha opinião, é duvidoso que se tenha o direito de esperar que os linguistas vão eventualmente descobrir uma estrutura gramatical suficientemente rica e universal.” (HAACK, 2002, p.56)



"A linguagem é pouco conhecida (...) nem mesmo linguistas profissionais podem afirmar compreendê-la totalmente.(...) Os livros de gramática tradicional não estão de fato errados, mas partilham com todas as outras tentativas de descrição linguística, inclusive as mais avançadas, a falha inevitável de serem incompletos.(...) sem dúvida, nenhuma frase de qualquer língua humana, jamais foi completamente descrita, e isto continuará a ser um fato ainda por muitas décadas.(...) Sabemos muita coisa sobre a linguagem, mas apesar de séculos de investigação séria, não poderíamos descrever exaustivamente a estrutura de qualquer língua, mesmo a mais intensamente estudada. Isso, porém, é essencialmente o que faz a criança (...) numa idade em que não é ainda capaz de raciocínio lógico e analítico." (LANGACKER, 1980, p.11, 17, 151, 249)



Apesar desta situação desconfortável, podemos encontrar definições genéricas e esforços sinceros para o desenvolvimento da linguística, Chomsky, por exemplo, define uma linguagem como “um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, cada uma de comprimento finito e formada a partir de um conjunto finito de símbolos.” (MORTARI, 2016, p.54, apud CHOMSKY, 1957, p.13), no entanto, como veremos mais tarde, seus esforços não obtiveram muito êxito, o fato é que a linguística não é capaz de compreender seu objeto de estudo.



1.1 SEMIÓTICA



A semiótica (ou semiologia) é o estudo dos sinais em conjunto com as pessoas que os utilizam (COSTA, 2008, p.40). Um de seus fundadores, o linguista suíço Ferdinand de Saussure, via a semiologia como “uma ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social” (MADEIRA 2001, p.54), portanto ela faria parte da psicologia social. Apesar desta definição ter sido utilizada neste sentido no século XVII pelo filósofo inglês John Locke, a semiótica como um campo científico interdisciplinar, surgiu apenas mais tarde. De acordo com a enciclopédia Britannica, em suas origens, a palavra “semiótica” referia-se à teoria que estudava os sintomas médicos, foi Rudolf Carnap (1942) que delineou o uso atual no qual a semiótica seria a ciência geral dos sinais e idiomas e, em referência à Charles William Morris, propôs sua divisão em 3 ramos: 

  • Pragmática com foco no usuário da linguagem, este ramo abrange psicologia, sociologia e história do uso de signos, especialmente de linguagens. Ela estuda as relações entre expressões e o o uso que as pessoas fazem dessas expressões (HAACK, 2002, p. 325);

  • Semântica que analisa as expressões e seus significados (denotações), este ramo contém a teoria da verdade (ver capítulo sobre Tarski) e a teoria da dedução lógica; 

  • Sintaxe que estuda apenas as relações formais entre as expressões, contém a lógica formal.



Saussure via a linguagem como um sistema de sinais, seu estudo da linguística forneceu as bases sobre as quais os semióticos fundamentaram outros sistemas simbólicos diferentes da linguagem, ele distinguia dois conceitos inseparáveis: 

  • O significante que seriam os sons e marcas escritas (coisas físicas);

  • O significado que é aquilo que o signo representa (o conceito) ou ideia por trás do signo. 

Apesar das definições e caracterizações descritas acima, os semióticos parecem se interessar mais pelos aspectos subjacentes (ou as entrelinhas) que tornam essas expressões compreensíveis (com esta ideia servindo de eixo para o estruturalismo linguístico).



Não devemos esperar uma resposta clara, sistematizada ou rigorosamente formal da semiótica, pois, de acordo com Madeira (2001, p.58), trata-se de uma “ciência humana”. Pessoalmente, acho exagerado dizer que ela abarque tudo aquilo que foi descrito nos três ramos acima, seria algo muito ambicioso a se esperar, pois a Semiótica, como ciência humana, não é capaz de descrever todos estes elementos de forma convincente:



(...) observamos a ausência de definições precisas ou satisfatórias(...) dos quadrados semióticos.” (MADEIRA 2001, p.409)



A partir da década de 1970 houve uma tentativa de contornar o caráter vago, difuso e não rigoroso do estudo da pragmática das linguagens naturais, isto era de pouca importância para os lógicos que se interessavam mais em verdades universais ou matemática. Este fenômeno prosseguiu paralelamente ao aumento do interesse em linguística, cujos resultados não são muito promissores conforme descrevemos neste livro. Também houve, dentro desta ciência, esforços de formalização de ciências empíricas, como física, biologia e até psicologia. Porém muitos estudiosos puseram em dúvida se houve, de fato, avanços neste sentido.



1.2 CHOMSKY



De acordo com Lyons (1970, p.11), Chomsky é uma autoridade da gramática, no entanto, a maior parte dos estudiosos não aceitaram sua teoria da gramática transformativa presente em sua obra “Syntactic Structures”. Ainda segundo este autor, existem muitas “escolas” de linguística, porém a vertente “transformativa” ou “chomskyana”, independente de estar certa ou errada, é “inegavelmente” a de maior influência e ocupa uma posição central.



Para Ruwet&Chomsky (1966, p.27, 42), a linguística não está apta a propor uma teoria semântica geral que proporcione a compreensão do funcionamento da linguagem . O fracasso desta “ciência” é evidenciado pelas seguintes passagens, repare que Chomsky alude à possibilidade de uma teoria mais simples e clara:



"(...) julgo que a teoria linguística tem até agora fracassado ao querer inteirar-se com precisão da noção de 'gramática'."(RUWET&CHOMSKY, 1966, p.66-67).



"Quando se constrói a gramática de uma língua particular, uma das decisões a tomar em presença de cada classe de frases é saber se as consideraremos nucleares ou derivadas. Penso que não existe nenhum processo mecânico geral que permita resolver esta questão, assim como não existe, que eu saiba, nenhum processo mecânico geral.(...) É bem possível que outros processos e outras formas de representação (outros níveis linguísticos), de um tipo completamente diferente, se revelem necessários à elaboração de um método simples e esclarecedor para derivar todas as frases gramaticais das línguas naturais.(...) Se um processo geral e mecânico, que permitisse construir gramáticas do tipo apropriado, a partir dos dados brutos, pudesse ser elaborado (e nós estamos muito longe disso, segundo creio)..." (RUWET&CHOMSKY, 1966, p.84-85,109, 118-119).



Já manifestei minha concordância com a possibilidade de haver uma estrutura deste tipo e propus uma teoria (MOTA, 2020a), pois, a linguística, aspirante a ciência, deixa muitas lacunas e questões em aberto. Em seu artigo "Uma concepção transformacional da sintaxe" Chomsky realiza uma autocrítica que constitui mais um ponto favorável à relativização da importância de seus estudos:



"Com efeito, há exceções para uma grande quantidade de regras de transformação dadas acima, talvez mesmo para todas(...)" (RUWET&CHOMSKY, 1966, p.116).



Em "A Noção de Regra de Gramática", Chomsky confirma a tese de que suas pesquisas não podem atingir um nível de profundidade desejável, pois nem sequer as ideias fundamentais são abordadas de forma rigorosa:



"A formulação precisa destas regras exigiria uma análise de noções fundamentais que iria muito além da exposição informal acima delineada, e aliás até das versões mais precisas que foram dadas antes." (RUWET&CHOMSKY, 1966, p.150).



"(...) quase todas as questões que dizem respeito à capacidade generativa das gramáticas transformacionais (...) continuam inteiramente em aberto, e, de fato, não poderão estabelecer-se enquanto os conceitos em jogo não forem mais esclarecidos." (RUWET&CHOMSKY, 1966, p.155).



Estes fatos constituem uma grande decepção, pois, segundo Lyons (1970, p.13): “O sistema de gramática transformativa de Chomsky foi desenvolvido (...) para propiciar precisa descrição matemática de alguns dos mais notáveis traços da linguagem."



"O estudo das propriedades formais e da capacidade gerativa dos vários tipos de gramática se faz como ramo da matemática ou da lógica, independentemente de sua relevância para a descrição das línguas naturais.(...) Até agora, a investigação matemática acerca da gramática transformativa, iniciada por Chomsky, só conseguiu progresso relativamente reduzido." (LYONS, 1970, p.63)



De fato, Chomsky apresenta um trabalho repleto de detalhes e com trejeitos de ciência exata. Porém, conforme o próprio Lyons afirma (1970, p.15, ver p.82), Chomsky é mais famoso devido seus escritos políticos do que por sua contribuição à compreensão da estrutura da linguagem. Na verdade, Chomsky mergulhou num ramo do conhecimento que não é muito bem estruturado e, além disso, utilizou-se de sua frágil estrutura. Portanto, era de se esperar que suas teorias apresentassem sérias deficiências.



"Cabe assinalar que é também informal o tratamento da gramática gerativa em ‘Syntactic Structures’ e na maioria dos trabalhos mais divulgados de Chomsky." (LYONS, 1970, p.46)



De acordo com Lyons, (1970, p.46), em “Syntactic Structures”, Chomsky apresenta três modelos para a descrição da linguagem, o primeiro deles ele demonstrou ser insuficiente para a análise do inglês e demais línguas naturais. O segundo seria muito mais satisfatório (p.54), porém, Chomsky demonstrou, em seguida, que ele também possuía limitações (p.57). Diante das dificuldades, ele assume o terceiro modelo "a gramática transformativa" como o melhor (p.60, 76). Chomsky tentou melhorar seu sistema e, em 1965, na obra “Aspects of the Theory of Syntax”, ele apresentou uma teoria ampliada da gramática transformativa (LYONS, 1970, p.46), ao que tudo indica, a mesma também apresenta limitações, pois baseia-se nos modelos anteriores.



Lyons (1970, p.103) afirma que o linguista, que desenvolve uma gramática gerativa de uma língua específica, deseja caracterizar todas suas sentenças. Porém, reforça a tese de que este é um objetivo até agora não alcançado para nenhuma linguagem natural, isto contrasta com o fato de que todo pensamento teórico deve originar-se baseado em uma linguagem (ALMEIDA, 2017, p. 337, apud CASSIRER, 1953). Como podemos utilizar algo tão vital sem conhecer seus fundamentos? Poderia isto explicar a grande confusão gerada em diversos campos do conhecimento não exato?



Apesar dos problemas expostos, Chomsky acredita que há uma gramática universal: uma estrutura partilhada por todas as línguas (LYONS, 1970, p.104). Tal fato pode ser notado se considerarmos que a maioria dos seres humanos são compostos por sentidos, psicologia e fisiologia equivalentes, tais fatores gerariam línguas cuja estrutura reflete a mesma realidade, portanto as línguas possuem um núcleo comum. Sua “gramática universal” pode ser entendida como a teoria do estado inicial (S°) que é geneticamente determinado (IBAÑOS&SILVEIRA, 2002, p.18-21), portanto, seus esforços generalistas não podem ser encarados de forma analítica, tanto o “programa minimalista” quanto as “gramáticas categoriais” também seguem por caminhos inexatos, apesar de originarem-se de aproximações de tratamentos matemáticos voltados às línguas naturais, elas contrapor-se-iam às gramáticas ditas gerativistas que estariam mais focadas em questões cognitivas:



Quanto às limitações, sabemos claramente que elas existem (e onde não existem?). (...) Num momento de tantas transformações, nenhum trabalho pode ter a pretensão de ser conclusivo. Apenas tentamos, de alguma forma, contribuir para sistematizar e fundamentar histórico-teoreticamente as gramáticas categoriais, que têm se apresentado como um campo de pesquisa muito atual e que têm procurado interpretar a linguagem natural.” (IBAÑOS&SILVEIRA, 2002, p.313-314 ver p.290)



"(...) registrei que devemos, pelo menos, encarar a possibilidade de que a teoria da gramática gerativa de Chomsky seja um dia abandonada, por consenso dos linguistas, como irrelevante para a descrição das línguas naturais. Devo acrescentar que pessoalmente acredito (e muitos linguistas partilham dessa crença) que ainda que se revele falha a tentativa de Chomsky para formalizar os conceitos empregados na análise das línguas, essa tentativa terá aumentado amplamente nossa compreensão daqueles conceitos(...)"(LYONS, 1970, p.115)



Segundo reportagem da BBC (2019), o linguista Daniel L. Everett constatou que a língua indígena pirahã do Amazonas desafia os preceitos da gramática universal de Chomsky (que chegou a chamar Everett de “charlatão”). Uma divergência importante entre estes dois acadêmicos é que Chomsky acredita que a linguagem surgiu entre 70 e 100 mil anos atrás, enquanto que Everett nos diz que ela é muito mais antiga, tendo surgido com o Homo erectus há 2 milhões de anos. 



"(...) sabemos que o Homo erectus tinha inteligência, cultura e símbolos, que o mar não era barreira para ele." (https://www.bbc.com/portuguese/geral-50256895, de 3/11/19, consultado em 29/08/21, 7:35)



Everett afirma que não descarta o aspecto genético (intrínseco) da linguagem, mas que apenas enriquece a descrição da gênese da linguagem considerando fatores culturais, corporais, etc. Portanto, não devemos entender seus estudos como refutações contra Chomsky. De acordo com Almeida, (2017, p.91), a gramática generativa de Chomsky é a tese de que existe uma estrutura inata, evolucionista, com a qual as crianças nascem. Apenas isto poderia explicar como cada uma delas aprende uma linguagem com tão poucos estímulos. Penso que, se tal ideia estiver correta, pode ser de grande valia para o melhor planejamento de uma educação básica, pois esta estrutura seria a principal responsável pela aprendizagem de todas as outras ciências dada a importância que a linguagem demonstra ter em todos os ramos do conhecimento.