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sábado, 23 de outubro de 2021

Filosofia, empirismo e positivismo lógico, Círculo de Viena, Wittgenstein, Quine e Carnap têm fundamento?

 4 #FILOSOFIA

Muitos autores sustentam que a filosofia é um ramo do conhecimento disperso:

(…) uma terminologia completamente precisa e adequada, em filosofia, é um ideal inatingível.” (COSTA, 2008, p.14)


Inevitavelmente, há muitas questões intrigantes que permanecem sem resposta.” (HAACK, 2002, p. 314)

Não há problema filosófico que não tenha recebido muitas respostas entre si incompatíveis. (...)um mesmo filósofo pode oferecer diferentes respostas para diferentes aspectos da matemática.(…) Como qualquer filosofia sua tarefa não é nos prover de teorias verdadeiras (…) A filosofia não é uma ciência e não lhe cabe uma noção científica de verdade.” (SILVA, 2007, p.15, 234)


Nossa intenção não é delimitar a filosofia ou defini-la precisamente, pois isto não é algo possível, já que, ao que tudo indica, ela é um tipo de espaço de questionamentos e hipóteses sem objetivo de propor conclusões. Também poderíamos assumir, por um instante, esta postura e supor que não expor uma teoria de forma clara e objetiva é uma estratégia para se evitar refutações. Apesar deste aspecto inexato e não rigoroso, Patrick Suppes, de forma muito estranha, afirma: “Certos problemas de fundamentos serão melhor resolvidos por filósofos do que por qualquer outra pessoa.”(SANT’ANNA, 2003, p.131, apud SUPPES).

Daremos um esboço que nos permita termos uma visão abrangente da filosofia e de como ela se relaciona com os assuntos fundamentais aqui tratados. Podemos dividir as filosofias a respeito da mente em duas categorias (ALMEIDA, 2017, p. 42-43):


-Dualismo: a existência da mente não depende daquilo que é físico, a mente seria algo imaterial. Esta vertente não pode explicar como se dá a interação entre o mental e o material (por exemplo: como que a mente age sobre o corpo?);


-Materialismo (teorias reducionistas): o físico possui tudo o que é mental;


Dentre as duas possibilidades, a que mais faz sentido é o materialismo, pois o dualismo violaria o princípio da conservação de energia, já que algo não físico geraria efeitos físicos como os sinais cerebrais.

Na filosofia, a questão dos universais refere-se às palavras que expressam propriedades que podem fazer parte de diversos objetos (universalmente) e não apenas de um objeto específico, por exemplo: curvo, vermelho, certo, etc. Para este tema também temos divisões na filosofia (ALMEIDA, 2017, p. 43-44):


- Nominalismo: nos diz que os universais são palavras que não têm correspondência com qualquer realidade;


- Conceitualismo: nos diz que os universais surgem da mente, quando ela descarta as diferenças entre as coisas e considera apenas suas semelhanças;


- Realismo: este ramo divide-se em dois eixos:


- Realismo radical: afirma que os universais existem de fato e que sua existência não depende das coisas existentes;


- Realismo moderado: afirma que a existência dos universais depende daquilo a que se referem.


As teorias matemáticas totalmente abstratas, independentes dos sentidos, seriam incompatíveis com a visão geral do "método científico" que apregoa o empirismo (experimentos). A corrente filosófica do "objetivismo" nos diz que a realidade existe independentemente da consciência, os sentidos nos fazem ter contato com a realidade. (ALMEIDA, 2017, p. 54, 216 apud Ayn Rand(1905-1982)), acreditamos que esta corrente seja a que mais tem sentido.



4.1 FILOSOFIA ANALÍTICA


Nesta seção, apresentaremos um resumo do artigo presente em (https://iep.utm.edu/analytic/, consultado em 21/07/12 às 12:28), desenvolvido pela © Copyright Internet Encyclopedia of Philosophy and its Authors | ISSN 2161-0002. Ele nos dará uma visão geral da filosofia analítica que possui as principais contribuições filosóficas para a linguagem comum e para a lógica. Alguns temas serão tratados separadamente nas próximas seções para que possamos nos aprofundar em detalhes específicos.

A filosofia analítica acreditava ser uma superação da filosofia tradicional, principalmente devido ao tratamento que ela direcionou para a linguagem que é, justamente, o principal instrumento para a realização da filosofia. Devido à sua diversidade, fazer uma caracterização contemporânea, sintetização ou formulação objetiva é algo muito difícil e, talvez, impossível devido a enorme quantidade de divergências e informações a respeito de sua composição e fundamentos: algo comum à filosofia. Esta escola da filosofia surgiu na virada do século XX com G. E. Moore e Bertrand Russell, apesar de muitos considerarem Gottlob Frege como um fundador da filosofia analítica, pois Russell confiou explicitamente no trabalho de Frege para o desenvolvimento de seus Principia Mathematica (apud Dummett 1993 e Kenny 2000).

No início da década de 1960, a distinção entre a linguagem comum e a linguagem formalizada gerou uma espécie de cisma neste movimento filosófico. A abordagem de linguagens formais introduziu um caráter “matemático” ao movimento, lançando as bases para o atomismo lógico desenvolvido por Russell e Ludwig Wittgenstein, esta ideia pode ser entendida como uma metafísica baseada na hipótese de que uma linguagem ideal como a dos Principia Mathematica é a chave para o entendimento da realidade. O principal motivo para isto pode ter sido o fato de que Russell acreditava que a linguagem natural produzia enganos filosóficos, portanto, para corrigir isto, deveríamos recorrer à linguagem formal com um simbolismo lógico (dos Principia Mathematica) que nos forneceria uma representação segura, livre de ambiguidades e enganos: abriu-se espaço para o positivismo lógico.

Wittgenstein afirmou que seu “Tractatus” solucionou todos os problemas da filosofia tradicional, mostrando que eles eram sem sentido e se originavam da falha na compreensão do discurso significativo. Os positivistas lógicos concordaram com esta visão de que a filosofia tradicional consistia em pseudoproblemas desprovidos de sentido e provenientes do mau uso da linguagem, portanto, sua obrigação deveria ser o combate contra os potenciais problemas da linguagem. O positivismo lógico rejeita aquilo que não possa ser verificado empiricamente: qualquer afirmação não tautológica possui significado, se e somente se, puder ser verificada experimentalmente. Este “princípio de verificação” é análogo ao princípio mantido no Tractatus de Wittgenstein, porém, o mais engraçado é que o fim do positivismo lógico deu-se, justamente, por uma contradição grotesca neste seu fundamento: o próprio princípio de verificação seria não tautológico e, no entanto, não pode ser verificado empiricamente. Isto gerou uma contradição que fez com que a filosofia analítica mudasse seu foco da lógica para a linguagem comum.

A filosofia da linguagem comum também é conhecida por "filosofia de Oxford", devido a maioria de seus teóricos terem sido professores de Oxford, depois de Wittgenstein (que estava em Cambridge), eles foram os representantes mais proeminentes neste campo. Geralmente, Wittgenstein também é visto como o mais importante dos filósofos da linguagem natural, mais tarde ele renegou sua visão anterior assumida no Tractatus, abandonou o atomismo lógico e assumiu a impossibilidade de fornecer uma estrutura universalmente correta, formalizada e simbólica para a linguagem geral: cada sistema linguístico seria como um jogo que tem suas próprias regras (jogos de linguagem), tais regras não teriam um caráter rigoroso e uma gramática restrita como ele havia defendido com Russell, elas seriam determinadas pela “forma de vida” de comunidades linguísticas. O “2° Wittgenstein” abandonou seus pretensos métodos exatos e viu a linguagem como um fenômeno intrinsecamente social e desprovido de regras formais, porém, mesmo após esta “metamorfose”, Wittgenstein manteve a opinião de que os pseudo problemas filosóficos tradicionais são oriundos do mau uso da linguagem. Wittgenstein via a Matemática e a Lógica como ciências puramente estruturais (formais), elas não teriam sentido nem conteúdo. Elas podem mostrar os possíveis “estados de coisas”, mas não tratariam de nenhum estado de coisas particular. Este pensamento está de acordo com o que vimos a respeito da lógica moderna e, consequentemente, da matemática.

O declínio da filosofia linguística deu-se a partir da década de 1960, devido a diversos problemas inclusive divisões internas entre os filósofos analíticos. O fracasso do positivismo lógico, reforçado pelas críticas de Wittgenstein e Quine, contribuíram para o encerramento da abordagem da linguagem ideal. A análise da linguagem comum também sofreu críticas de muitos, incluindo Bertrand Russell, que viam sua abordagem como algo distante de ser um trabalho filosófico sério. A obra “Words and Things” de Ernest Gellner (1959), e seu sucesso internacional, fez com que T. P. Uschanov denominasse este momento de "a estranha morte da filosofia da linguagem comum". Atualmente, a filosofia analítica assumiu um caráter plural e eclético, descaracterizando-se ainda mais.


4.2 O EMPIRISMO LÓGICO



Nesta seção, apresentaremos um resumo do artigo presente em https://plato.stanford.edu/entries/logical-empiricism/, consultado em 21/7/21 às 9:30.



O empirismo lógico estaria mais próximo de um movimento filosófico do que de um conjunto de doutrinas, ele teve diversos líderes diferentes cujas opiniões se modificaram, até mesmo divergiam, com o passar do tempo e, provavelmente, não exista consenso sobre algo importante entre todos os empiristas lógicos. Este caráter disperso contrasta com o adjetivo "lógico", adotado pelo grupo, na verdade, o termo "empirismo lógico" não tem fronteiras muito precisas e nada muito claro que o distinga da expressão "positivismo lógico", além disso, "é duvidoso que qualquer limite de princípios possa ser traçado ao longo de linhas doutrinárias ou sociológicas" (apud UEBEL, 2013). Todos estes problemas parecem ter sido postos em segundo plano, pois o que manteve os empiristas lógicos unidos foi uma preocupação compartilhada relativa à metodologia científica e o papel da ciência na reformulação da sociedade.

Hans Hahn, Moritz Schlick, Rudolf Carnap e Otto Neurath eram líderes do Círculo de Viena e Kurt Gödel comparecia regularmente a suas reuniões. A lista de seus membros, visitantes e interlocutores é impressionante, incluindo  WV Quine, Alfred Tarski, Ludwig Wittgenstein, dentre diversos outros. Nem todos admitiram fazer parte do movimento empirista lógico, mas pode-se argumentar que todos fizeram contribuições para ele, mas, apesar de todas essas participações prestigiadas, o empirismo lógico provavelmente nunca obteve a aprovação da maioria dos filósofos do mundo e, em 1970, o movimento estava claramente encerrado. Karl Popper (1902-1994) chegou a afirmar ter “matado” o positivismo lógico e, em 1967, John Passmore disse: "O positivismo lógico está morto, ou tão morto quanto um movimento filosófico pode se tornar" (PASSMORE, 1967, p. 57), ele também igualava o positivismo lógico ao empirismo lógico, portanto, consequentemente, o empirismo lógico também estava morto.

Neste percurso houve muitas formulações diferentes de princípios verificacionistas, que constituem um fundamento deste movimento, mas a maioria delas teve um destino infeliz muito rapidamente. Conforme vimos no capítulo sobre a filosofia analítica, isto teve consequências trágicas para todo este movimento filosófico. Carnap tentou contornar este problema mudando a natureza da discussão ao introduzir um novo conceito, o "Princípio da Tolerância", que afirmava não existir uma lógica exclusivamente correta, portanto, o empirismo lógico deveria ser entendido como uma proposta e não como um conjunto de verdades absolutas. Esta proposta de Carnap aparenta não fornecer nada de diferente do relativismo adotado como tática em diversas discussões: não existe certo ou errado, cada um tem sua opinião que se adequa às suas necessidades. Penso que a única coisa nova é a expressão "Princípio da Tolerância" que nada mais é do que um nome novo para uma coisa velha, de fato, ele mergulhou em profunda inépcia ao assumir isto.

Outro aspecto importante, relativo ao empirismo lógico, foi que alguns membros do Círculo de Viena, Otto Neurath acima de todos, defenderam a unificação da ciência em termos fisicalistas, derivando toda a química, biologia, psicologia e ciências sociais (nessa ordem) a partir de alguns princípios básicos da física. Carnap, em seu Aufbau, tentou cooperar com este projeto, ele buscou definir todos os conceitos científicos com base em um número muito pequeno de conceitos básicos, talvez apenas um conceito básico. Esta questão ainda não foi resolvida pela filosofia, e os filósofos estão mal equipados para respondê-la (afirmação da fonte de Stanford).


4.3 O CÍRCULO DE VIENA



De acordo com https://iep.utm.edu/viennacr/ (consultado em 29/7/21 às 8:49), o Círculo de Viena foi um grupo de filósofos organizado por Moritz Schlick em 1922. O Círculo (palavra que nos remete a algo fechado e excludente) contou com a participação de Rudolf Carnap, K. Gödel, Wittgenstein, dentre outros. O Círculo de Viena foi muito ativo na publicidade do positivismo lógico, contando com diversos congressos de epistemologia e filosofia da ciência, sediados em localidades economicamente privilegiadas. O Círculo de Viena se dispersou quando o nazismo chegou ao poder, muitos deles emigraram para os EUA. Schlick decidiu permanecer na Áustria, mas em 1936 foi morto na Universidade de Viena por um estudante simpatizante do nazismo.

Devido Moritz Schlick ter liderado o Círculo de Viena sob a influência de Wittgenstein (CARNAP et al, 1975, p.128), consideramos importante estudar a seu respeito durante boa parte deste capítulo, mas dedicaremos um capítulo separado para Wittgenstein. Nota-se, inicialmente, que a visão de Schlick a respeito da filosofia tradicional era negativa, pois, segundo ele, ela chegara a um estado caótico devido sua falta de rigidez para selecionar as questões que realmente faziam sentido, além disso, ela também utilizaria métodos diferentes das demais ciências (SCHLICK et al, 1975, p.49). Apesar da postura crítica de seu colega, Wittgenstein acabou recorrendo aos métodos que ele mesmo se opunha ao assumir que a crítica de Kant contra a “prova ontológica da existência de Deus” possuía fundamento (SCHLICK, 1975, p.58) ele admitiu, sem qualquer prova ou raciocínio lógico, que a existência não pode ser uma propriedade. Se assumirmos que uma propriedade é qualquer coisa que se refira a uma coisa, então a existência seria uma propriedade, pois ela se aplica a qualquer coisa. Se Deus existir, então ela será uma propriedade a Ele relacionada ou será um predicado: que é a mesma coisa. Apesar de cometer este erro, devo concordar com sua ideia básica a respeito da existência (se isolada do que foi dito acima). Tenho tratado o conceito de existência de forma reiterativa em meus escritos, pois o vejo como uma fonte constante de enganos e definições imprecisas que acabam gerando diversos problemas e pseudo conclusões, diante disto, constatei que Schlick chegou a uma conclusão condizente com aquela que apresentei (MOTA 2020a):


“ ‘Existe x’ equivale a dizer que ‘x é real’, que ‘x é uma realidade’.” (SCHLICK et al, 1975, p.58)



Hilbert sustentava este pensamento, para ele “existir” era sinônimo de “não contraditório” (COSTA, 1992, p.53), apesar desta convergência de pensamentos, aparentemente, Schlick comete dois enganos relacionados à existência:

1°- Ao dizer que a frase de Descartes “eu existo”, em referência aos conteúdos da consciência, é “completamente desprovida de sentido, não exprime nada, não contém conhecimento algum” (SCHLICK, 1975, p.61). Notamos que, se a fala de Descartes não exprime nada, então não conseguiríamos nem ao menos falar sobre ela. Esta declaração é uma crítica desprovida de argumentos que se assemelha a um ataque pessoal:

Não cabe dúvida alguma de que Descartes não adquiriu nenhum conhecimento com o seu enunciado, senão que depois dele permaneceu tão inteligente ‘como antes’.”(SCHLICK, 1975, p.61)



2°- Schlick defendeu, de forma ríspida, que só podemos discutir sobre coisas cuja existência pode ser verificada (verificacionismo). Portanto, seu outro engano a respeito da existência consiste em limitá-la ao que pode ser verificado por nossos sentidos ou por extensões físicas (artificiais) destes:


Quem, não obstante isto, acredita em tal coisa, ou melhor, quem pensa acreditar nela, só pode fazê-lo calando-se.” (SCHLICK, 1975, p.68) 



Esta segunda questão relaciona-se com a afirmação de que “limitar-se ao que é ‘dado’ (pode ser verificado) é um fundamento do positivismo lógico” (CARNAP et al, 1975, p.197). Apesar de defender este princípio, Schlick foi um crítico de sua formulação: 



Entretanto, o mencionado princípio raramente foi formulado com clareza dentro das referidas correntes, sendo com frequência mesclado com tantas proposições inaceitáveis, que se impõe uma purificação lógica do mesmo.” (SCHLICK et al, 1975, p.68-69)


4.4 WITTGENSTEIN 1889-1951



Algumas pessoas consideram Ludwig Wittgenstein o maior filósofo do século XX, ele desempenhou um papel central, embora controverso, na filosofia analítica do século XX

https://plato.stanford.edu/entries/wittgenstein/Ludwig Wittgenstein (consultado em 29/07/21 às 10:20), portanto, é vital nos aprofundarmos em seu pensamento para constatar se há algum vestígio de algo que possa ser aproveitado para justificar a filosofia analítica, o positivismo lógico ou a filosofia em si.

Faremos uma resenha do livro “Os Pensadores - Wittgenstein” citando apenas as páginas, da mesma forma que fizemos com Russell. Acredito que isto tornará a leitura mais objetiva e fundamentará as observações pontualmente.

Wittgenstein sentia-se deprimido devido a um sentimento de proximidade da morte que o impediria de concluir seus trabalhos em lógica, apelou para várias seções de hipnose para buscar respostas mais claras sobre lógica (p.6).

Ele resumiu seu objetivo na seguinte frase: “todo meu trabalho consiste em explicar a natureza das sentenças”, em particular, admitia que havia um paralelismo (um tipo de isomorfia) completo entre o mundo dos fatos reais e as estruturas da linguagem, as sentenças possuiriam a mesma “forma” da realidade que representam (p.9).

(...) algo semelhante a uma última análise das nossas formas de linguagem, portanto uma forma de expressão totalmente decomposta(…). Isto se expressa na questão relativa à essência da linguagem(...)”(p.62).

Esta visão está de acordo com a concepção de linguagem como uma representação da realidade que apresentei no início deste livro.

Os temas do Tractatus estão agrupados em 7 proposições com nível crescente de complexidade.”(p.6)


1- O mundo é tudo o que ocorre;

2- O fato é o subsistir de estados de coisas;

3- Pensamento é a figuração lógica dos fatos;

4- O pensamento é a proposição significativa;

5- A proposição é uma função de verdade das proposições elementares;

6- A forma geral da função de verdade é [p,ξ,Ñ(ξ)];

7- O que não se pode falar, deve-se calar.



Entre 1 e 2 há uma redundância, pois “tudo o que ocorre” é o conjunto dos “estados de coisas”. O mesmo problema ocorre entre 3 e 4, pois “figuração lógica” é sinônimo de “proposição significativa” já que coisas sem significado são coisas sem lógica. Wittgenstein nos diz:


Algo vermelho pode ser destruído, mas o vermelho não, e por isso a significação da palavra ‘vermelho’ é independente da existência de uma coisa vermelha”(p.49).


Esta dedução, relacionada à questão dos universais, está incorreta, pois o vermelho não existiria se coisas vermelhas não existissem: se não houvesse a frequência e comprimento de onda que caracterizam o vermelho, não teríamos objetos refletindo a cor vermelha, portanto ele não existiria. Os universais garantem a existências de plurais, pois, quando a eles nos referimos, destacamos uma característica comum a um conjunto de elementos. O que difere os objetos se todos são feitos pela mesma substância? Esta questão relaciona-se com a essência da existência e do universo, mas é um fato que, para um cozinheiro saber se sua sopa está boa, basta-lhe experimentar uma colher.


As proposições 5 e 6 aludem à concepção da lógica moderna de que há fórmulas atômicas a partir das quais originam-se fórmulas compostas, cita-se a visão expressa por Sócrates sobre o fato de que a única coisa possível a se fazer com os elementos primitivos seria nomeá-los (p.43): estes seriam os “individuals” de Russell e os “objetos” de Wittgenstein. A expressão 7 parece legitimar o princípio verificacionista do empirismo lógico, em minha opinião, a forma como foi escrito implica uma atitude delimitadora para a obtenção do conhecimento. Acredito que, após estas constatações, é simplesmente impossível consertar os fundamentos do “Tractatus” e ele mesmo apoia esta visão ao ter dito, mais tarde, que o Tractatus é “extremamente insatisfatório”(p.13). A teoria de Wittgenstein baseia-se na ideia de que a linguagem representa a realidade (p.90), porém, como vimos acima, ele não pôde desenvolver uma teoria adequada devido sua incompreensão das sutilezas da linguagem, o que o levou a cometer erros e redundâncias. Apesar disso, sua visão a respeito da contradição como algo impossível (p.11), que não representa a realidade, está correta. Isto serve de apoio para refutar Gödel que construiu sua teoria sobre uma contradição.

Wittgenstein afirma que nem as tautologias, nem as equações matemáticas dizem algo sobre o mundo e que todos os acontecimentos são acidentais. Além disso, para ele, o que há no mundo não seria nem bom nem mal e que estes seriam conceitos existentes apenas em relação ao sujeito (p.12). De fato, a matemática trabalha com propriedades genéricas, os próprios números expressam isto, pois desconsideram as características de coisas diferentes limitando-se às suas quantidades. Sua concepção de bem e mal também está correta, são conceitos relativos (MOTA, 2020a), porém sua ideia de que todos os acontecimentos são acidentais carece de elementos que a sustentem.

Acredito que o fato de haver tantas inconsistências levou Wittgenstein a abandonar a orientação logicista que caracteriza o “Tractatus”. Por exemplo: ele afirma que “existe com certeza o indizível” (p.13), porém, esta frase diz algo sobre o indizível. Naturalmente, ele teve que rever sua postura e buscar novos caminhos, então eis que surge o “segundo Wittgenstein” que dizia ser preciso desfazer-se de superstições atreladas à linguagem.

O 2º Wittgenstein afirma que não cabe questionar sobre o significado das palavras, mas apenas sobre suas funções práticas e, aquilo que conhecemos por linguagem é, na verdade, um conjunto de “jogos de linguagem”. Agora ele pensava que a linguagem não poderia ser unificada como uma única estrutura lógica e formal (p.14, 27), algo que demonstrei ser inválido (MOTA, 2020a). Wittgenstein criticou a postura dos filósofos que teriam se deixado levar pelo desejo de descobrir a essência da linguagem. A filosofia teria que mudar esta postura, seu objetivo deveria ser apenas ensinar aos homens como ver as questões, ela não pode explicar nada nem deduzir coisa alguma (p.15). Devemos concordar com esta proposta, pois, de acordo com o que temos visto, a filosofia, realmente, não é capaz de explicar ou deduzir nada e, talvez, nem seja este seu objetivo, se é que se possa dizer que ela tenha um objetivo.

Alguns admiradores de Wittgenstein o consideram o pai da filosofia linguística (p.16), contudo, diante do que já vimos, somos levados a ver este ramo da filosofia como algo completamente destinado ao fracasso. Seria bom ver o que o próprio Wittgenstein ruminou a respeito disso, para que não cometamos nenhum falso testemunho:

Após várias tentativas fracassadas para condensar meus resultados num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que poderia escrever permaneceriam sempre anotações filosóficas, que meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava contra a tendência natural, forçá-los em uma direção (…). As anotações filosóficas deste livro são, por assim dizer, uma porção de esboços de paisagens que nasceram nestas longas e confusas viagens.” (p.25)

Com efeito, desde que há dezesseis anos comecei novamente a me ocupar de filosofia, tive de reconhecer os graves erros que publicara naquele primeiro livro (…). Gostaria realmente de ter produzido um bom livro. Tal não se realizou, mas passou-se o momento em que poderia tê-lo corrigido - Cambridge, Janeiro de 1945.” (p.26)

Finalizamos este capítulo com o trecho que atesta tudo o que foi argumentado aqui:

Aqui encontramos a grande questão que está por trás de todas essas considerações. Pois poderiam objetar-me: ‘Você simplifica tudo! Você fala de todas as espécies de jogos de linguagem possíveis, mas em nenhum momento disse o que é essencial do jogo de linguagem, e portanto da própria linguagem. O que é comum a todos esses processos e os torna linguagem ou partes da linguagem. Você se dispensa pois justamente da parte da investigação que outrora lhe proporcionara as maiores dores de cabeça, isto é, àquela concernente à forma geral da proposição e da linguagem.’ E isso é verdade.” (p.52)


4.5 QUINE 1908-2000

Quine apresenta-nos uma visão que muito se assemelha com aquilo que temos visto até o momento:



"O que há não depende em geral do uso que se faz da linguagem, mas o que se diz que há depende." (QUINE, 2011, p.146)



"Algo curioso sobre o problema ontológico é sua simplicidade. Ele pode ser formulado com três monossílabos do português: 'O que há?'. Ele pode ser resolvido, além disso, com uma palavra - 'Tudo' -, e todos aceitarão a resposta como verdadeira." (QUINE, 2011, p.11)



"Aprendemos lógica estudando a linguagem." (QUINE, 1972, p.135)



"Ocorre que a verdade pode depender da realidade e não da linguagem. (...) Contudo, é certo que a verdade depende da realidade e, sem dúvida, depende mesmo. Nenhuma sentença é verdadeira, porém a realidade assim a torna. A sentença ‘a neve é branca’ é verdadeira, conforme Tarski nos ensinou, se e somente se, a neve real é realmente branca. (...) A verdade depende da realidade. Por este motivo, objetamos que chamar as sentenças de verdadeiras representa uma confusão." (QUINE, 1972, p. 24-25)


Quine teve Whitehead como orientador de doutorado, visitou seminários e conferências de Tarski, teve contatos com Carnap, Church etc. https://www.revistas.usp.br/ss/article/view/11013/12781 - p.373,374  29/6/21-11:25 e (QUINE, 2011, p.8). Quine vivenciou praticamente todo o panorama lógico desde os primórdios do século passado até seu final, ele acreditava que a linguagem matemática utiliza expressões da linguagem natural que passam a ter um status simbólico artificial, contrastando com Tarski que dizia que a expressão "sentença verdadeira" não poderia ser extraída da linguagem comum. Quine (1972, pg, 4-5), defende que a linguagem matemática codificada pode ser útil para esclarecer a linguagem natural, isto fez com que seu trabalho fosse prestigiado dentre os adeptos da filosofia analítica, apesar deste ramo de estudo não ter apresentado resultados conclusivos a respeito.

Parece adequado darmos atenção aos trabalhos deste filósofo, pois assim também justificaríamos o investimento que a Rockefeller Foundation e a Ford Foundation fizeram nele (QUINE, 1968, p.12), além de retribuirmos sua visita ao Brasil:



"Em meses precedentes eu havia aperfeiçoado meu português, porque eu estava decidido a lecionar em tal língua. Eu escrevi minhas primeiras conferências para ganhar confiança linguística. Então eu continuei a escrevê-las por outra razão: eu tive a ideia de que eu poderia ter mais impacto sobre filósofos e matemáticos brasileiros deixando a eles minhas conferências em forma de livro. As conferências eram faladas no meu português incorreto, porém Vicente Ferreira da Silva me ajudou a corrigi-las antes de publicar. Quando deixei o Brasil, ‘O sentido da nova lógica’ estava nas mãos do editor."

https://www.revistas.usp.br/ss/article/view/11013/12781 - p.376  29/6/21-11:25, apud (Quine, 1986, p. 23)



"Se pressionado (...) afirmaria que a Lógica é o estudo sistemático das verdades lógicas. Pressionado, novamente, afirmaria que uma sentença é logicamente verdadeira se toda a sentença munida de estrutura gramatical idêntica à sua for verdadeira. Pressionado ainda mais, pediria que lessem este livro. Uma vez que considero a Lógica como resultante de duas componentes - verdade e gramática - tratarei a verdade e a gramática proeminentemente. Entretanto, argumentarei contra a doutrina que afirma serem verdadeiras as verdades lógicas devido à gramática e à linguagem." (QUINE, 1972, p.11)



"Minha definição mais geral de verdade lógica (...) baseia-se em dois fatos: a Gramática, que tem um aspecto puramente linguístico, e a verdade, que não o tem. Uma sentença é logicamente verdadeira se todas as sentenças munidas dessa estrutura gramatical são verdadeiras. Em outras palavras, está-se tentando afirmar que uma sentença é logicamente verdadeira se é verdadeira puramente por causa de sua estrutura gramatical. Evito essa frase porque sugere que é a linguagem que torna as verdades lógicas verdadeiras - a linguagem puramente, sem ter qualquer relação com a natureza do mundo. Essa doutrina, que denomino de Teoria Linguística de Verdade Lógica, é aquela que Carnap subscreveu. Entretanto, julgo que existe menos confirmação para essa teoria do que se possa vir a pensar. (...) Talvez as verdades lógicas devem sua verdade a certos traços de realidade (...)" (QUINE, 1972, p. 128-129)



A frase "a lógica estuda verdades lógicas" é problemática, o mais correto seria afirmar que " a lógica estuda verdades", pois o autor não definiu precisamente o que é lógica. A posição de Quine restringe, inicialmente, sua visão da verdade às estruturas gramaticais tautológicas que independem do contexto, isto pode ser válido dentro da lógica clássica, mas não se estende além disso. Ele mesmo acaba concordando com isto ao citar a realidade, porém, de fato, de acordo com sua visão formal, uma verdade lógica é uma sentença cuja verdade baseia-se em sua estrutura lógica (QUINE, 1972, p.71), por exemplo: "não p ou p".



"As sentenças são linguagem. Esta forma de criar uma realidade de que a verdade depende está certamente ultrapassada: representa uma projeção imaginária, através de sentenças. (...) Falando da verdade de uma determinada sentença existe apenas desorientação. Devemos simplesmente emitir a sentença e explanar, não a respeito da linguagem, mas sobre o mundo." (QUINE, 1972, p. 24-25)



"A doutrina da proposição parece, sob certos aspectos, fútil (...) Em resumo, as proposições têm sido projetadas como sombras das sentenças (...). No melhor dos casos, elas não nos darão nada que as sentenças não nos dêem. (...) Filósofos que defendem proposições afirmam que proposições são necessárias porque somente a verdade das proposições, e não a das sentenças, é inteligível. Uma resposta desagradável é a de que podemos explicitar a verdade das sentenças para os proposicionistas nos seus próprios termos: são verdadeiras as sentenças cujos significados são proposições verdadeiras. Qualquer falta de inteligibilidade, neste caso, provém da própria deficiência do proposicionista. (...) O que é considerado como verdadeiro ou falso não são as proposições, mas os signos de sentenças ou as próprias sentenças." (QUINE, 1972, p.24)



Quine ataca a definição de proposições como sendo o "sentido das sentenças", seriam apenas elas que poderiam ser consideradas verdadeiras ou não, mas admite que este termo também seja frequentemente visto como sinônimo de "sentenças declarativas", tal confusão também se estende sobre a palavra "enunciado". Devemos concordar com este ponto de vista, pois esta questão terminológica não produz nenhuma discussão proveitosa, apenas contribui para inchar, ainda mais, a verborragia filosófica repleta de sinônimos tratados como antônimos. Seguindo o mesmo raciocínio depurador, Quine (1972, p. 41-43) assume uma posição crítica em relação ao excesso de símbolos numa teoria, ele nos diz que o "ou", a implicação e a quantificação universal não são essenciais, pois podem ser expressas por meio da negação, da conjunção e do quantificador existencial, a quantificação poderia ser expressa por meio da alternação e ser considerada como mera abreviação (QUINE, 1972, p.133). Este é um fato conhecido hoje em dia, mas pouco valorizado, Quine avança sobre este problema, mas não chega a propor uma forma de gerar elementos da linguagem natural como já foi feito (MOTA, 2020a), entretanto admite a possibilidade de uma redução das partículas de forma independente do vocabulário a ser considerado:



"E que palavras incluir como partículas nas construções? (...) observem que não reconheci nenhuma construção geradora de predicados.(...) Existe meia dúzia de tais construções que combinadas nos permitem eliminar completamente variáveis e quantificadores. (...) Não temos qualquer noção transcendente e defensável de construção ou de léxico.(...) E as verdades lógicas permanecem verdadeiras, sob todas as substituições léxicas." (QUINE, 1972, p.47-49, 84)



Outra questão a respeito da qual o autor desdenha (e com razão) são os nomes. Esta questão dividiu as pessoas naquelas que acreditavam que eles possuem significado e representação e as que não acreditam que eles tenham significado. Frege, Russell, Quine, Wittgenstein acreditavam que sim, portanto o nome descreveria a pessoa. Quine, em particular, rejeitava que havia uma distinção entre nomes e descrições: se Maria já é o nome de Maria, ‘Maria’ seria o nome do nome de Maria, “Maria”..., este raciocínio coloca o nome como algo circular e, portanto, sem sentido.



"Entre os ornatos omitidos, o principal foi o nome. Representa também mera conveniência estritamente redundante (...) E os nomes podem ser reestabelecidos à vontade, como redundância, por uma convenção de abreviatura." (QUINE, 1972, p.43-44)



Quine (1972, p. 49-50) nos diz que a questão do tempo verbal pode ser evitada pela lógica moderna, para isto basta considerá-lo como um predicado qualquer (por ex. cor, posição, etc.), desta forma os verbos podem ser vistos como alheios ao tempo (o que é feito na lógica moderna). O corpo deveria, segundo este cientista, ser visto como um todo quadridimensional em consonância com o que apregoa a teoria da relatividade. O autor também defende que as expressões de "atitude proposicional" (pensar, acreditar, desejar, pretender, etc.) e de "modalidade" (necessariamente e possivelmente) são notoriamente obscuras (QUINE, 1972, p.53-54). Este fato comprova sua incompreensão da linguagem e seu desdém por lógicas alternativas que tentam formalizar estes elementos.

Quine acreditava que as noções intensionais* (de significado) eram incorrigivelmente obscuras (HAACK, 2002, p. 77), este fato fortalece o argumento de que ele padecia da dificuldade de formalizar o léxico da LN, isto o transforma em um seguidor do caminho traçado por outros lógicos que não puderam resolver este problema da linguagem natural:



"A lógica procura a verdade na área da Gramática. (...) Esse processo, para o qual nos voltamos agora, deve-se a Tarski, exceto nas minúcias. (...) as ideias do presente tópico, bem como as dos dois precedentes, pertencem a Tarski." (QUINE, 1972, p. 55, 59, 65).



*Extensão = denotação = referência de uma expressão; Intenção = conotação = significado de uma expressão.


A posição servil de Quine o levou a considerar, seriamente, teorias absurdas como a de von Newman (QUINE, 2011, p.161) que dividiu o universo em coisas que podem ser membros e coisas que não podem: como dizer que há um universo e assumir que há coisas fora dele? (A questão das classes equivale ao problema dos universais). Este episódio revela uma confiança cega em personagens que gozavam de certo prestígio, o mesmo pode ser dito a respeito de sua postura em relação a Gödel que também o torna uma espécie de discípulo (QUINE, 2011, pg.34, 67, 185).

De acordo com Haack, (2002, p. 35), Quine afirmava que a teoria dos conjuntos não fazia parte da lógica, apesar disto, ele sustentava que esta teoria pode fundamentar a matemática e admitia que existem muitas teorias dos conjuntos dentre as quais não sabemos qual seja a melhor. Em contraste, os pioneiros da lógica moderna encararam a teoria dos conjuntos como lógica, por exemplo: Frege, Russell, Whitehead. Outro ponto de vista interessante deste lógico, que aparentemente o contradiz, é que ele afirmou haver uma deficiência nas versões estruturais da verdade lógica, quando elas excluem a teoria dos conjuntos de dentro da lógica, este fato vai diretamente contra seu pensamento de que a teoria dos conjuntos não faz parte da lógica (QUINE, 1972, p.79, 91, 99). Quine também diz que os "Principia Mathematica" nos dão boas evidências de que toda Matemática (pura) pode ser traduzida na lógica, todos os princípios da matemática reduzir-se-iam a princípios da lógica que são três: pertencimento (teoria dos conjuntos), quantificação universal e "se x, então não y" (QUINE, 2011, p.117-119,128-129).



Quine não deixou de lado algumas questões envolvendo a matemática independente da lógica, por exemplo: há uma redundância na divisão, pois x=y/z, significa que x.z=y ou seja y/z é o número que multiplicado a z nos dá x (QUINE, 1972, p. 103). Desta forma, a divisão expressa uma situação de multiplicação e esta, por sua vez, expressa uma situação de somas sucessivas; isto nos levaria a imaginar tais operações como redundantes. Este pensamento encontra amparo em iniciativas mais modernas e com mais recursos informacionais para a identificação de elementos indecomponíveis (MOTA, 2020a). Quine (1972, p.51, 106), também avançou sobre conceitos particulares da linguagem natural, ele defende que os advérbios são necessários, eles não cumpririam um papel meramente estilístico, sendo possível analisar "x anda rapidamente" como "existe y, y é o andar de x, y é rápido". Devemos prestigiar sua análise de elementos gramaticais, pois ela vai na direção de identificar aquilo que realmente é fundamental para o conhecimento; o superlativo, por exemplo, é visto por ele como algo supérfluo, formalmente: "Fmais x" poderia ser traduzido por "existe y, Fmais xy e não existe y Fmais yx".



A respeito das razões que podem ter influenciado a negação da bivalência clássica, Quine afirma, (1972, p. 115), que, de fato, há algumas que não são tão dignas de consideração, por exemplo: as diferentes gradações entre o preto e o branco. Portanto, para ele não faz sentido imaginar que há mais do que o falso e o verdadeiro. Mesmo que algo seja parcialmente verdadeiro, é possível identificar suas partes falsas e verdadeiras sem que seja necessário admitir mais valores de verdade. Outro fator criticado por ele é a confusão que as pessoas fazem entre conhecimento e verdade, neste ponto também devemos concordar, pois a opinião de pessoas sobre algo da realidade não modifica a realidade, mas somente a imagem que elas fazem dela.

O princípio de Heisenberg afirma que não se pode medir, simultaneamente, a posição e a velocidade de uma partícula subatômica. Inclusive, ao se tentar fazer isto, os meios empregados podem afetar nos resultados observados (COSTA, 2008, p.59-60). É evidente que Quine tinha um apreço pela Física, talvez até exagerado e acrítico. Ele considera que o Princípio de Heisenberg (ou princípio da incerteza) é uma lei da Física quando, na verdade, não passa de uma formalização de um fato que expressa a limitação observacional humana, a Mecânica Quântica não pode contradizer o princípio da bivalência, mas há que afirme que não (COSTA, 2008, p.135). Ele também coloca a Física acima da Teoria dos Conjuntos no que diz respeito à obtenção de uma compreensão integral da natureza (QUINE, 1972, p.116-117). Heisenberg lançou mão do argumento de que a matemática, assim como a lógica, seria livre de contexto: “Portanto, as realidades matemáticas não podem ser usadas como ponto de partida para uma ordenação da realidade (...) a matemática é a ordenação pura e simples, em sua forma mais pura, livre de todo conteúdo.” (ALMEIDA, 2017, p.242, apud HEISENBERG, 2009, p. 19-20). Concordo quando Quine diz que a fronteira entre matéria e energia se dissipou, sua analogia das classes que são formadas por classes sucessivas assim como a matéria é muito feliz (QUINE, 2011, p.70), mas este pensamento de Heisenberg é um tipo de mistificação da matemática, dado que a geometria é um exemplo claro de ramo matemático que surgiu da realidade observada. É inegável que boa parte da Matemática surgiu da abstração de coisas da realidade, portanto não podemos dizer que ela é “livre de todo conteúdo”.


A respeito da lógica intuicionista, ele nos diz: "Falta à lógica intuicionista a familiaridade, a conveniência, a simplicidade e a beleza de nossa lógica." (QUINE, 1972, p.118). De acordo com o que já vimos, creio que seja desnecessário prolongarmos a questão a respeito desta doutrina, pois deriva-se da incompreensão da língua comum. De acordo com os seguintes trechos, de fato, a lógica possui um caráter problemático, indefinido e não conseguiu cortar o cordão umbilical que a conecta com a linguagem natural:



"Se a simples lógica não é conclusiva, o que será conclusivo? Que tribunal tão elevado poderá ab-rogar a lógica das funções verdade ou da quantificação? (...) Devem todos os espíritos equilibrados acreditar na Lógica, ou deve a Lógica por si mesma abranger toda a linguagem? Estas são questões de elevado teor. Parecem ressoar em um nível mais profundo da Filosofia da Lógica. As duas questões estão em completa harmonia, até o ponto de construírem duas formas para uma única questão. Neste momento, a primeira das duas questões, ou formas, provou não ter fundamento ou que todos os fundamentos não têm qualquer significado. Quanto à segunda questão ou forma, provou ser vazia (...). Há aqueles que antes procuram separar a lógica da linguagem (...). O motivo deles para separar a lógica da linguagem merece mais ser aplaudido do que o seu andrajoso expediente. Esse mesmo motivo não representa muita coisa para ser aplaudido, pois, como realcei nestas páginas, o predicado verdade já está presente e desempenha a função ativa de separar a Lógica da linguagem. (...) A Teoria Lógica, apesar de sua forte dependência em relação à linguagem, é mais orientada em relação ao mundo do que em relação à Linguagem. E o predicado verdade faz com que isso seja assim" (QUINE, 1972, p.109, 129-131).


Quine desdenha da tentativa de separar a lógica da linguagem, somos induzidos a pensar que esta era uma questão incomoda para o filósofo, pois ele não conseguiu justificá-la convincentemente. Seu argumento de que o predicado verdade cumpre o papel de separar a linguagem e a lógica não faz sentido, já que a linguagem natural engloba o conceito de verdade e qualquer justificativa utiliza-se dela mesma para ser expressa.



"Não se admira de que se procure qualquer fundamento diferente para a verdade matemática e para a verdade lógica. Estas são as ciências mais firmes e nenhum fragmento de evidência empírica é atribuído a elas. Outras causas já revistas e deploradas, em recentes páginas, encorajarão ainda certos filósofos a elaborar uma Teoria Linguística da Verdade Lógica. Encontrando a Matemática e a Lógica por trás desta barreira, eles adotam a Teoria Linguística para ambas.(...)" (QUINE, 1972, p.133-134).



Acima vemos Quine idealizar a lógica e a matemática acima de qualquer empirismo, parece haver uma incoerência aqui, pois ele mesmo afirmou que a verdade deve-se à realidade, deixando claro seu posicionamento favorável à Física. Ao final vemos uma previsão que nos induz a pensarmos que esta questão, insistente, da linguagem, de fato, incomodava o filósofo.



Em "Dois dogmas do empirismo", Quine critica a divisão, proposta por Kant, entre verdades analíticas (fatos) e sintéticas (construídas com fatos). Ela não seria original, pois ele relata que Hume apresentara a distinção entre "relações de ideias" e "questões de fato" e, Leibniz, entre "verdades da razão" e "verdades de fato" que seriam equivalentes à "inovação" de Kant (QUINE, 2011, p.37-38).

Quine apresenta uma visão muito dura a respeito da linguística, devemos registrar isto, pois é algo que se mostra útil para os propósitos deste livro:


"Na falta de uma explicação satisfatória para a noção de significado, os linguistas que trabalham no campo semântico se encontram na situação de não saber do que estão falando. (...) essa é uma situação insatisfatória, como dolorosamente sabem os linguistas com mentalidade mais teórica." (QUINE, 2011, p.73)



Devemos considerar os estudos de Quine de forma crítica, pois ele mesmo admite que são "ensaios" (QUINE, 2011, p.166). Quando ele considerou o paradoxo de Russell como algo correto (QUINE, 2011, p.140, 142), deu-nos razões para crer que ele também caiu na mesma armadilha que muitos outros sucumbiram, creio que ele foi mais um filósofo do que um lógico, se é que, diante de toda a problemática retratada, podemos dizer que a lógica seja mais exata do que a filosofia:

"O que tenho para dizer daqui em diante será tão vago (...)"(QUINE, 2011, p.90) 


4.6 CARNAP 1891-1970


As informações disponibilizadas neste capítulo foram extraídas do artigo disponível em https://plato.stanford.edu/entries/carnap/, consultado em 27/07/21 às 9:00. Referências alternativas serão citadas quando forem utilizadas.



De acordo com www.oxfordreference.com (consultado em 21/7 às 9:15), Carnap foi um membro proeminente do Círculo de Viena e um dos principais expoentes do Positivismo Lógico antes da Segunda Guerra Mundial. “Logical Syntax of Language” é considerada a obra prima de Carnap, esse livro foi fortemente motivado pela busca de uma única linguagem padrão para a ciência. Ele imaginava que sua linguagem canônica poderia ser uma linguagem universal capaz de expressar toda a física e todo o conhecimento (apud Carnap 1932b), no entanto, Carnap falhou neste tão sonhado objetivo (apud Awodey & Carus 2007, 2009). Até o final de 1932, ele ainda achava que poderia haver uma linguagem única para a sintaxe lógica e gastou muito tempo na procura por tal sistema de linguagem.

Ao assumir o "Princípio da Tolerância", acerca do qual falamos anteriormente, Carnap adotou um pluralismo linguístico no qual não há certo ou errado, sua "linguagem universal" passou a ser considerada como apenas um exemplo.



"Na lógica, não há moral. Todos são bem-vindos para estabelecer sua lógica, ou seja, sua forma de linguagem, como bem entender. Se ele quiser discutir isso conosco, entretanto, ele precisa declarar suas intenções claramente e dar especificações sintáticas ao invés de debates filosóficos.” (LSS: §17)



Em seu "Aufbau (1928)" (A estrutura lógica do mundo), Carnap imaginou um sistema de conhecimento que pudesse ser dedutivo. Carnap acabou agindo de forma semelhante a Frege, pois havia sido seu aluno, tal fato é um ponto negativo tendo em vista o que já vimos a respeito de Frege, embora também tenha sido estimulado pela teoria de Tarski (http://www.fafich.ufmg.br/~margutti/Rudolf%20Carnap%20-%20Stanford%20Encyclopaedia%20of%20Philosophy.pdf, consultado em 20/07/21 – 20:00,

p. 2). Carnap tinha a tendência de seguir algumas doutrinas com ares formais, ele possuía um senso crítico mais ativo em relação à filosofia tradicional chegando a afirmar que muitos problemas filosóficos são pseudoproblemas resultantes do mau uso da linguagem. Para ele, a solução (devida a Tarski) seria evitar a linguagem comum e estudar as questões filosóficas em linguagens artificiais (https://iep.utm.edu/carnap/, consultado em 21/7/21 às 9:35).



De acordo com Richardson (1998), o Aufbau foi importante para a história da filosofia analítica sendo, talvez, o documento crucial na formação do projeto de positivismo lógico e também a "tentativa" mais trabalhada de Carnap para fornecer uma epistemologia geral do conhecimento empírico.

Em 1930, a tendência "wittgensteiniana" do Círculo de Viena entrou em colapso. Carnap passou a noite de 21 de janeiro de 1931 em claro para propor uma base alternativa para o movimento (apud Awodey & Carus, 2009). Carnap abandonou Wittgenstein completamente ao adotar um postura hilbertiana, esta conjuntura provocou uma divisão no Círculo entre a "direita" que ainda seguia Wittgenstein e a “esquerda” que seguiu Carnap em sua nova proposta.



O fato de Gödel ter pensado que a abordagem de Carnap para a matemática poderia ser refutada serve de indício para desabonar Carnap - Caso esqueçamos, por um instante, que Gödel também estava errado e lembrarmos, também por um momento, que, apesar disto, ele é considerado um dos quatro lógicos mais importantes da história. - Todavia, devo dizer que a seguinte conclusão de Carnap merece um destaque positivo:



"Devemos somente retroceder até o conceito de implicação. Este é um conceito fundamental da lógica que nenhuma pessoa pode criticar ou mesmo evitar: é indispensável em toda filosofia e em todo ramo da ciência." (CARNAP, 1975, p.150)