sábado, 27 de março de 2021

L3: TARSKI

 TARSKI 1901-1983

(HAACK, 2002, p.)

A CONCEPÇÃO SEMÂNTICA DA VERDADE - ALFRED TARSKI - EDITORA UNESP, 2007- SÃO PAULO.

"A teoria de Tarski tem sido, ultimamente, com grande probabilidade, a teoria da verdade mais influente e mais amplamente aceita" (HAACK, 2002, p.143).

    Ao lado de Aristóteles, Frege e Gödel, Tarski é considerado um dos quatro maiores lógicos de todos os tempos de acordo com Mortari e Dutra na introdução da tradução portuguesa dos textos clássicos de Tarski. Ele não obteve sucesso no tratamento da questão a respeito da formalização da linguagem natural e deixa claro que seus métodos devem ser encarados de forma restrita às linguagens artificiais-formais (TARSKI, 2007, p.12, 166). Além disso, apresenta um ceticismo quanto ao poder de sua teoria para a abordagem de questões epistemológicas que seriam, grosso modo, o estudo da teoria do conhecimento científico, o mesmo pode ser dito para as ciências empíricas (experimentais). 

    Tarski defende que sua teoria deve ser encarada como algo neutro em relação às concepções de mundo e de linguagem, porém, em seu artigo "O estabelecimento da semântica científica", ele se aproxima de uma proposta de linguagem fisicalista (ou seja: ligada à uma concepção de mundo) como linguagem geral da ciência (TARSKI, 2007, p.11, 13, 190). Esta aparente contradição não aparece sozinha no repertório de Tarski, de fato, inicialmente, ele estabelece a seguinte definição denominada "esquema T": 

  'x' é uma sentença verdadeira <=> x

Por exemplo: 'a neve é branca' é uma sentença verdadeira <=> a neve é branca, o lado esquerdo da equivalência deve ser visto como um nome ou uma referência/representação de algo (TARSKI, 2007, p.217), o lado direito diz respeito ao algo em si. Quine concorda que colocar uma expressão entre aspas indica uma representação desta expressão, da qual não faria parte (HAACK, 2002, p. 203). Poderíamos imaginar isto como uma função com domínio na linguagem natural e contradomínio na realidade, seria uma forma de interpretar a verdade de forma correspondencial (como correspondendo à realidade). Novamente, isto contraria sua alegação de que sua teoria deva ser encarada como neutra em relação às concepções de mundo - Popper sustentou este ponto de vista (TARSKI, 2007, p.14) - Parece que Tarski não quis assumir que seu "esquema T" não passava de uma definição correspondencial de verdade com o intuito de angariar ou alegar originalidade, dado que que Bertrand  Russell (em "A filosofia do atomismo lógico") e Wittgenstein (no "Tractatus") (HAACK, 2002, p.160) defendiam esta concepção, isto tudo fica evidenciado quando ele diz:

"Gostaríamos que nossa definição fizesse justiça às intuições que seguem a concepção clássica aristotélica da verdade(...)"(TARSKI, 2007, p.160) - Ver p.187 como acréscimo.

Ele ainda sustenta que toda equivalência da forma do "esquema T" pode ser considerada uma definição parcial de verdade e que a definição geral deveria ser uma conjunção de todas as definições parciais (TARSKI, 2007, p.163 e HAACK, 2002, p.149), logo, tendo isto em mente, somos levados a questionar a utilização de variáveis em sua definição, ela não indicariam esta conjunção de forma automática? próprio Tarski argumenta que uma definição conjuntiva seria impossível devido ao número de definições parciais poder ser infinito.

Quando confrontado a respeito da pretensa neutralidade de sua teoria, Tarski chegou a dizer que ela funcionava perfeitamente para linguagens formalizada e que, portanto, pouco importava se ela estivesse ou não relacionada com a noção comum de verdade, podendo até utilizar o termo "ferdadeiro" para sua teoria (TARSKI, 2007, p.16). Este episódio estranho nos faz imaginarmos uma situação na qual uma pessoa perguntasse para Tarski: "Tua teoria é verdadeira ou falsa?", então ele se veria num dilema, pois qualquer resposta que ele desse o faria adotar uma concepção comum de verdade, deixemos que o próprio Tarski nos fale mais a respeito de suas ideias: 

"Pois, embora o significado da expressão 'sentença verdadeira', na linguagem coloquial, pareça ser bem claro e inteligível, todas as tentativas de definir tal significado com mais precisão foram até hoje infrutíferas(...). Não é a intenção aqui fazer uma análise completa e detalhada do significado do termo 'verdadeiro' em uso na vida cotidiana" (TARSKI, 2007, p.20)

"No parágrafo 1°, o objeto de nossa discussão é a linguagem coloquial. A conclusão final é totalmente negativa. Nessa linguagem, parece impossível definir a noção de verdade e até mesmo aplicar tal noção de maneira consistente e concordante com as leis da lógica (...). Para as linguagens desse grupo (linguagens mais ricas), jamais seremos capazes de construir uma definição correta da noção de verdade." (TARSKI, 2007, p.21)

"A tentativa de estabelecer uma definição estrutural do termo 'sentença verdadeira' - aplicável à linguagem natural - é confrontada com dificuldades insuperáveis." (TARSKI, 2007, p.31)

Estas frases de Tarski refletem o fato de não termos que esperar muito desta teoria no que se refere à linguagem natural, apesar do fato dela abranger, gerar e poder explicar as linguagens formalizadas. Ele mesmo utiliza a linguagem cotidiana para explicar sua teoria em seus artigos. Tarski assume que sua análise é incompleta e não detalhada no contexto da "vida cotidiana", seu fracasso fica evidenciado pelas seguintes passagens:

"(...)abandono agora a tentativa de resolver nosso problema para a linguagem cotidiana e restrinjo-me, daqui em diante, inteiramente às linguagens formalizadas. Estas podem ser aproximadamente caracterizadas como linguagens artificialmente construídas nas quais o sentido de toda expressão é univocamente determinado por sua forma."(TARSKI, 2007, p.33).

"(...) todas as tentativas de caracterizar esse significado (da semântica) de maneira geral e exata fracassaram." (TARSKI, 2007, p.165)

Parece ter sido uma grande decepção, pois o próprio Tarski reconhece que a linguagem natural tem caráter universal em contraste com as linguagens formais-artificiais (TARSKI, 2007, p.32, 35, 217). Ele parece ter sido influenciado pelos trabalhos de Gödel e Russell ao acreditar que os paradoxos que ocorrem na linguagem cotidiana o impediram de trabalhar com ela: as linguagens universais seriam inconsistentes por natureza, logo deveríamos restringir-nos às linguagens construídas de forma artificial, sendo estas livres de inconsistências. Acredito que ele tomou o caminho mais direto, dada a crescente influência contemporânea dos trabalhos de Kurt Gödel, ele simplesmente disse que qualquer tentativa de abarcar -teoricamente- todas as linguagens imagináveis ou construtíveis estaria condenada a falhar (TARSKI, 2007, p.78), penso que a simples menção às antinomias (paradoxos) seja algo insuficiente para sustentar esta perspectiva (MOTA, 2020a), mas novamente parece que ele muda de ideia:

"Quem quer que deseje apesar de todas as dificuldades, perseguir a semântica da linguagem coloquial com o auxílio de métodos exatos será levado primeiro a empreender a tarefa ingrata de uma reforma dessa linguagem. Ele achará necessário definir sua estrutura, superar a ambiguidade dos termos que ocorrem nela e, finalmente, dividir a linguagem em uma série de linguagens de cada vez maior extensão, cada uma das quais está na mesma relação para a próxima na qual uma linguagem formalizada está com sua metalinguagem. Pode-se, contudo, duvidar se a linguagem da vida cotidiana, depois de ter sido 'racionalizada' dessa maneira, iria ainda preservar sua naturalidade e se ela não iria, ao invés disso, tomar aspectos característicos das linguagens formalizadas" (TARSKI, 2007, p.137).

"(...) a metalinguagem deve conter a linguagem objeto como uma parte sua" (TARSKI, 2007, p.170)

Nesta passagem, Tarski se contradiz novamente ao considerar a possibilidade de tratar a linguagem natural de forma "exata", algumas pessoas argumentaram que a limitação da definição de verdade de Tarski constituiria um ponto fraco, pois "verdadeiro-em-L" seria inferior a "verdadeiro", tanto é que uma mesma frase pode ser verdadeira em uma linguagem e falsa ou sem sentido em outra, portanto a definição de Tarski não é absoluta, mas apenas relativa (HAACK, 2002, p.123, 161, 162). Novamente, podemos perceber a herança de Russell que propôs sua teoria dos tipos basicamente com o intuito de evitar paradoxos. Em resumo, esta teoria nos diz que há uma hierarquia de tipos, isto influenciou os trabalhos de Gödel e Tarski que adaptaram esta ideia com a noção de metalinguagem que nada mais é do que uma hierarquia de linguagens:

"As pessoas não se deram conta de que a linguagem da qual falamos não precisa coincidir, de forma alguma, com a linguagem na qual falamos. Fez-se a semântica de uma linguagem na própria linguagem e, de modo geral, procedeu-se como se houvesse apenas uma linguagem no mundo. A análise das antinomias (paradoxos) mencionadas mostra, ao contrário, que os conceitos semânticos simplesmente não têm lugar na linguagem à qual eles se relacionam, que a linguagem que contém sua própria semântica e na qual valem as leis usuais da lógica, inevitavelmente deve ser inconsistente". (TARSKI, 2007, p.150).

Tarski inicia sua fala utilizando a linguagem na qual falamos para falar a respeito da linguagem da qual falamos (outra atitude contraditória), em seguida critica o ato de tomarmos a semântica (significados) de uma linguagem dentro dela mesma e, novamente, sustenta esta posição apenas sobre a questão dos paradoxos. Kripke (1975) propôs uma teoria da verdade derivada da de Tarski, com a intenção de dar conta dos paradoxos (HAACK, 2002, p.128, 129), já que ele suas ideias derivam de Tarski, pelos problemas aqui apresentados, o mais correto é desconsiderar seus estudos, o mesmo pode ser dito a respeito de Davidson (outro discípulo de Tarski) que discordava dele sobre não ser possível formalizar a linguagem natural (HAACK, 2002, p.148). Vejamos como Tarski tenta contornar esta questão:

"A descrição de uma linguagem é exata e clara apenas se ela é puramente estrutural, ou seja, se empregamos nela somente os conceitos relacionados com a forma e o arranjo dos signos e expressões compostas da linguagem". (TARSKI, 2007, p.151).

Aqui vemos uma postura tradicional da lógica que é desprezar o contexto das expressões da linguagem, tomando em consideração apenas sua "forma" que são fórmulas produzidas a partir de um alfabeto restrito composto por conectivos lógicos, variáveis, constantes, quantificadores etc. Este trecho descreve bem o que seriam linguagens formalizadas.

"O próprio fato de ter sido possível definir os conceitos semânticos, pelo menos para linguagens formalizadas, de maneira correta e adequada parece ser não inteiramente sem importância do ponto de vista filosófico." (TARSKI, 2007, p.155).

Podemos reparar uma insinuação para a filosofia, será que Tarski temeu uma rejeição por parte da matemática ou da lógica? Apesar disto, ele apresenta uma postura de desdém em relação a filosofia e aos filósofos:

"No que diz respeito ao termo 'proposição', seu significado é notoriamente um assunto de longas disputas de vários filósofos e lógicos, e parece nunca ter sido tornado inteiramente claro e não ambíguo". (TARSKI, 2007, p.159)

"A palavra 'verdadeiro', como outras palavras de nossa linguagem cotidiana, certamente não está isenta de ambiguidade. E não me parece que os filósofos que discutiram esse conceito tenham ajudado a diminuir sua ambiguidade.(...) Contudo, todas essas formulações podem levar a várias confusões, pois nenhuma delas é suficientemente precisa e clara(...). De qualquer modo, nenhuma delas pode ser considerada uma definição satisfatória de verdade." (TARSKI, 2007, p.160, 161)

Concordo com estas opiniões, pois os filósofos utilizam a linguagem natural sem tê-la entendido completamente, sem ter mergulhado em suas estruturas mais profundas, mas acredito que Tarski deveria se incluir nesta descrição. Em contraste com este cenário caótico, de acordo com a TNL temos:

y é uma proposição = x>.iy, x>.i(x°.i(.y ou °.y);

y é verdadeiro = .y;

"Espero que nada do que aqui é dito seja interpretado como uma alegação de que a concepção semântica da verdade seja a concepção 'certa' ou, de fato, a única possível. Não tenho a mínima intenção, de forma nenhuma, para aquelas discussões sem fim, frequentemente ardentes, sobre o tema: 'Qual é a concepção certa de verdade?'. Devo confessar que não entendo o que está em questão em tais disputas, pois o próprio problema é tão vago que nenhuma solução definitiva é possível.(...) Disputas desse tipo não estão de modo algum restritas à noção de verdade. Elas ocorrem em todo domínio no qual - em vez de uma terminologia exata e científica - a linguagem comum, com sua vaguidade e ambiguidade é usada. E elas são sempre destituídas de significado e, portanto, vãs. (...) Especificamente a respeito da noção de verdade é, sem dúvida, o caso que em discussões filosóficas- e talvez também no uso cotidiano - podem ser encontradas algumas concepções incipientes dessa noção, que diferem essencialmente da concepção clássica (da qual a concepção semântica é apenas uma forma modernizada). De fato, várias concepções desse tipo foram discutidas na literatura, por exemplo, a concepção pragmática, a teoria da coerência etc."(TARSKI, 2007, p.179, 180)

Organizarei esta fala com 3 questões:

1) Tarski nos diz, conforme fizemos citação à página 155, que via certa relevância em seus estudos para a filosofia. Por acaso ele não mantém a coerência? Ele não disse que não tinha nenhuma pretensão deste tipo?

2) Em seguida, afirma que não vê sentido em buscar uma concepção correta do conceito de verdade, mas, de acordo com Haack (2002, p. 163, 164) o mesmo pode ser dito do fornecimento de um critério de verdade ou da aplicação de sua teoria às ciências empíricas. Ele condena o uso da linguagem comum afirmando que suas disputas são sempre destituídas de significado e vãs. Acaso ele não faz uso da linguagem comum durante este desabafo? Dizer que tais discussões são "sempre" vãs não condenaria a motivação de seu trabalho?

3) Ele afirma que sua concepção de verdade não passa de uma versão "modernizada" da versão clássica. Ora, isto não seria outra incoerência dado que ele alegou que sua teoria deveria ser vista como algo neutro em relação às concepções de mundo (vide citação da página 14)?

"Parece-me que nenhuma dessas concepções foi até agora colocada de forma inteligível e inequívoca. Isso, contudo, pode mudar. Pode chegar o momento em que nos encontraremos diante de diversas concepções de verdade, incompatíveis mas igualmente claras e precisas. Tornar-se-á, então, necessário abandonar o uso ambíguo da palavra 'verdadeiro' e, em seu lugar, introduzir diversos termos, cada um para denotar uma noção diferente. Pessoalmente, não me sentiria magoado se um congresso mundial futuro de 'teóricos da verdade' decidisse - por maioria de votos - reservar a palavra 'verdadeiro' para uma das concepções não clássicas, e sugerisse uma outra palavra digamos 'ferdadeiro', para a concepção aqui considerada. Mas não posso imaginar que alguém possa apresentar argumentos fortes de que a concepção semântica esteja 'errada' e deva ser inteiramente abandonada.(...) As objeções específicas que foram levantadas contra minhas investigações podem ser divididas em diversos grupos, cada um será discutido separadamente.(...) Contudo, duvido muito que alguma delas possa ser considerada seriamente." (TARSKI, 2007, p.181)

Neste momento, Tarski demonstra um receio dos rumos que o estudo da verdade tomarão, isto fica evidente quando ele considera a possibilidade de sua teoria ser, ao menos, parcialmente abandonada, além disso, sua postura de menosprezo em relação às críticas contrasta com sua atitude em classificá-las e respondê-las.

"Algumas pessoas insistiram, portanto, que o termo 'verdadeiro', no sentido semântico, pode sempre ser eliminado, e que por essa razão a concepção semântica da verdade é completamente estéril e inútil. E uma vez que as mesmas considerações se aplicam a outras noções semânticas, tem-se concluído que a semântica como um todo é um jogo puramente verbal e, no melhor dos casos, um passatempo inofensivo". (TARSKI, 2007, p.185).

Este relato de crítica nos faz entendermos o ressentimento inicial de Tarski, mas ela tem fundamento, pois critica seu uso indiscrimidado da linguagem comum (jogo verbal). Também podemos questionar sua pretensa aversão à ambiguidade, pois o conceito de existência não seria equivalente ao conceito de verdade? O que é verdadeiro existe? O que existe é verdadeiro? A crítica se fundamenta, pois a frase "a sentença 'x' é verdadeira" poderia ser substituída simplesmente por x de acordo com o próprio "esquema T" - T de Tarski, devo ressaltar...- que estabelece tal equivalência. 

"Além disso, levantaram-se dúvidas se a concepção semântica reflete a noção de verdade em seu uso diário e de senso comum. Vejo claramente (como já indiquei) que o significado comum da palavra 'verdadeiro'- como de qualquer outra palavra da linguagem cotidiana - é em certa medida vago, e que seu uso mais ou menos flutua. Logo, o problema de conferir a essa palavra um significado fixo e exato é relativamente não especificado,e toda solução para esse problema implica necessariamente certo desvio da prática da linguagem cotidiana.(...) Apesar de tudo isso, acontece que acredito que a concepção semântica se conforme, sim, de forma bastante considerável, com o uso de senso comum - embora eu admita prontamente que possa estar enganado." (TARSKI, 2007, p.187)

Temos, novamente, uma contradição com a proclamada neutralidade de sua teoria, além disso, ao afirmar que a palavra 'verdadeiro' assim como qualquer outra palavra da linguagem cotidiana é vaga com uso flutuante (em certa medida que ele não diz qual é), surge a questão do por quê ele insiste em utilizar a linguagem cotidiana em sua análise. Aliás, como alguém pode dizer que todas as palavras são vagas? Isto é algo muito forte e parece nos remeter à uma incompreensão completa da linguagem ou a um estado mental desprovido de suas faculdades elementares. Mas ele diz "acreditar" em sua concepção... Deveríamos encarar isto como uma questão de crença assim como ele o fez? No fim ele admite que pode estar errado, novamente, devo insisto em dizer, ele comete outra incoerência com suas próprias palavra, pois, na página 181 citada, ele afirma que os questionamentos contrários a sua teoria não deveriam ser considerados seriamente.

Portanto, não fiquei de modo algum surpreso ao saber que (em uma discussão dedicada a esses problemas), em um grupo de pessoas que foram ouvidas, apenas 15% concordaram que 'verdadeiro' significa para elas 'concordar com a realidade', enquanto 90% concordaram que uma sentença tal como 'está nevando' é verdadeira se, e somente se, está nevando." (TARSKI, 2007, p.188)

Aqui Tarski tenta legitimar sua concepção "perguntando para as pessoas" o que elas achavam, devemos reparar que 5% das pessoas disseram que as duas concepções são equivalentes. Mas é claro que detalhes de como tal pesquisa foi feita não foram disponibilizados, acredito que as pessoas tenham sido obrigadas a escolher apenas uma das duas alternativas e que estes 5% insistiram que eram equivalentes, apesar do provável lobby feito a favor de uma delas. 

"Ouvi a informação de que a definição formal da verdade não tem nada a ver com o 'problema filosófico da verdade'. Contudo, ninguém nunca me indicou, de forma inteligível o que exatamente é ess problema. Fui informado, a esse respeito, que minha definição, embora enuncie condições necessárias e suficientes para uma sentença ser verdadeira, não apreende realmente a 'essência' desse conceito. Uma vez que nunca fui capaz de entender o que é a 'essência' de um conceito, devo ser desculpado por não discutir mais esse ponto. De modo geral, não acredito que haja uma tal coisa como 'o problema filosófico da verdade'(...)" (TARSKI, 2007, p.188).

Neste aspecto concordo com Tarski em sua crítica a respeito da filosofia, de fato, ela não possui um encadeamento lógico nem dispõe de uma organização clara ou proposta sistemática de questões em aberto, aliás, nem creio ter tal objetivo ou capacidade. Quanto à questão da palavra 'essência', sua etimologia está relacionada com o verbo ser (em latim 'esse'), que indica aquilo o que as coisas são, sinceramente não vejo nenhuma dificuldade em entender ou mitificar este termo simples. Portanto, quando Tarski diz que nunca foi capaz de entender o significado do que seria a 'essência de um conceito', a melhor resposta possível seria dizer-lhe que 'é aquilo que o conceito é'.

"A concepção semântica da verdade foi acusada diversas vezes de envolver certos elementos metafísicos." (TARSKI, 2007, p.180).

"A questão toda depende obviamente do que se entende por 'metafísica'. Infelizmente, essa noção é extremamente vaga e equívoca. Ao se acompanharem  discussões a esse respeito, às vezes, tem-se a impressão de que o termo 'metafísico' perdeu qualquer significado objetivo, e que é usado apenas como um tipo de injúria filosófica profissional. Para alguns, a metafísica é uma teoria geral dos objetos (ontologia) - uma disciplina a ser desenvolvida de forma puramente empírica e que difere de outras disciplinas apenas por sua generalidade- Não sei se tal disciplina realmente existe(...). Para a maioria, contudo, o termo 'metafísico' é utilizado em oposição direta  - em um sentido ou outro - a empírico." (TARSKI, 2007, p.191).

Também concordo com ele neste sentido, isto reflete o que foi discutido acima, pois a filosofia não define seus termos de forma exata e, de acordo com uma corrente ou outra, pode até apresentar versões incompatíveis de ideias, mas pode ser encarada como um tipo de esboço e levantamento de hipóteses informais sobre determinados assuntos.

"Falando de forma mais séria, não desejo negar que o valor do trabalho de um homem possa ser aumentado por suas aplicações na pesquisa e na prática de outros. Entretanto, acredito ser prejudicial ao progresso da ciência medir a importância de qualquer pesquisa exclusiva ou prioritariamente em termos de sua utilidade ou aplicabilidade". (TARSKI, 2007, p.201).

"De modo mais específico, iremos nos concentrar exclusivamente no significado do termo 'verdadeiro' quando usado com referência a sentenças. Este era, presumivelmente, o uso original na linguagem humana. Sentenças são aqui tratadas como objetos linguísticos como certas sequências de sons ou signos escritos. (Obviamente, nem toda sequência desse tipo é uma sentença). Além disso, quando falarmos de sentenças, deveremos ter sempre em mente aquilo que, em gramática, são chamadas sentenças declarativas e não sentenças interrogativas ou imperativas." (TARSKI, 2007, p.204).

"Algumas outras concepções e teorias da verdade, tais como a concepção pragmática e a teoria da coerência, são discutidas na literatura filosófica moderna. Estas concepções parecem ser de caráter exclusivamente normativo e têm pouca conexão com o uso real do termo 'verdadeiro'. Nenhuma delas foi até agora formulada com um bom grau de clareza e precisão. Neste artigo, essas concepções e teorias não serão discutidas.(...) Tentaremos aqui obter uma explanação mais precisa da concepção clássica de verdade, uma explanação que possa superar a formulação aristotélica e que preserve, ao mesmo tempo, suas intenções básicas." (TARSKI, 2007, p.205) 

Quando Tarski nos diz que a importância de uma pesquisa não deve se fundamentar em sua utilidade ou aplicabilidade, creio que ele responde às críticas que afirmam que sua concepção não passa de algo equivalente ao correspondencialismo, ele admite isto na página 205 ao nos dizer que ele conserva as intenções básicas da formulação aristotélica (que é correspondencial), mas nos diz que o objetivo era explaná-la de uma forma melhor, apesar dele considerá-la insatisfatória Haack (2002, p. 159, apud TARSKI, 1944, p. 54).
Concordo com as críticas que ele faz contra outras "definições" modernas de verdade, de acordo com Haack (2002, p. 156, apud BLACK, 1948, p. 260), a neutralidade de Tarski com respeito a tais teorias de verdade divergente é o bastante para evidenciar sua falta de relevância.Outro ponto interessante aqui é que ele admite, mais uma vez, o caráter de incompletude de seu trabalho, pois desconsidera sentenças interrogativas e imperativas, além disso, podemos limitar ainda mais o escopo de seu trabalho ao considerar que ele ignora os problemas gerados por sentenças que contém dêiticos como "eu" e "agora" (HAACK, 2002, p.160). 

"Quando falamos alguma coisa acerca de um objeto, usamos sempre o nome desse objeto e não o próprio objeto, mesmo quando lidamos com objetos linguísticos". (TARSKI, 2007, p.207).

Aqui há uma reflexão a respeito do 'esquema T' ('p' é verdadeira <=> p). Este pensamento está correto, mas poderíamos tomá-lo de forma extrema, pois p já é um nome que indica um objeto, logo não é o objeto em si (a não ser que estejamos nos referindo à letra p). desta forma, poderíamos descartar o lado esquerdo da equivalência do esquema T ('p' é verdadeira) e dizermos apenas p, por exemplo, ele mesmo discute (TARSKI, 2007, p.215) que, ao invés de dizer que 'é verdadeiro que todos os gatos são pretos', podemos dizer simplesmente que 'todos os gatos são pretos'.

"Ao tentar preparar uma lista completa das sentenças em português (original inglês), deparamo-nos de início com a dificuldade de as regras da gramática portuguesa não determinarem com precisão a forma das expressões (sequências de palavras) que devam ser contadas como sentenças.(...) Além disso, o conjunto de todas as sentenças em português é, ao menos potencialmente, infinito. (...) Dessas observações, não se deduz que a desejada definição de verdade para sentenças quaisquer em português não possa, por alguma outra via, ser obtida - quem sabe, talvez, usando outra ideia. Entretanto, existe uma razão mais séria e fundamental que parece eliminar tal possibilidade. Mais que isso, a mera suposição de que um uso adequado do termo 'verdadeiro' (com referência a sentenças quaisquer em português) foi assegurado por qualquer método parece levar a uma contradição. O argumento mais simples que fornece tal contradição, conhecido como antinomia do mentiroso (...)". (TARSKI, 2007, p.211).

"O aparecimento de uma antinomia é, para mim, sintoma de uma doença (...) sempre que isso acontece, temos de submenter nossos modos de pensar a uma completa revisão: rejeitar algumas premissas nas quais acreditávamos..." (TARSKI, 2007, p.214).

Nesta parte vemos uma crítica que, de fato, faz sentido quanto à gramática, pois ela nos fornece uma descrição insatisfatória em vários sentidos (MOTA, 2020). Vemos, novamente, que Tarski lança mão do paradoxo do mentiroso para sustentar seu ponto de vista, discordo de sua abordagem, pois comparar paradoxos com doenças parece impedir um tratamento mais sério da questão, e foi o que ele fez de fato quando evitou este problema contornando-o ao invés de enfrentá-lo.
 
"(...) não tenho em mente qualquer coisa essencialmente oposta às linguagens naturais. Pelo contrário, as únicas linguagens formalizadas que parecem ter real interesse são aquelas que constituem fragmentos de linguagens naturais (...) ou aquelas que podem ao menos ser traduzidas adequadamente em linguagens naturais (...) A metalinguagem deve ser suficientemente rica, devendo, em particular, incluir a linguagem-objeto como parte." (TARSKI, 2007, p.219).

Já vimos que Tarski coloca a linguagem natural como universal, portanto faz sentido dizer que as linguagens formalizadas são meros fragmentos da linguagem natural. Portanto, de acordo com estas premissas, a metalinguagem "maximal" deveria ser justamente a linguagem natural, pois ela incluiria todas as linguagens artificiais, até mesmo aquelas que, aparentemente, são ininteligíveis podem ser traduzidas em linguagem natural.

"A antinomia do mentiroso apareceu inicialmente em nossa discussão como uma força maligna de grande poder destrutivo, tendo nos compelido a abandonar todas as tentativas de aclarar a noção de verdade para linguagens naturais. Tivemos que restringir nossos esforços a linguagens formalizadas do discurso científico. Como salvaguarda contra um possível reaparecimento da antinomia, tivemos de complicar consideravelmente a discussão, fazendo a distinção entre uma linguagem e sua metalinguagem. Em sequência, entretanto, no novo e restrito cenário, conseguimos subjugar essa energia destrutiva e utilizá-la para propósitos pacíficos e construtivos. A antinomia não apareceu, mas sua ideia básica foi usada para estabelecer um resultado metalógico importante e de amplas implicações". (TARSKI, 2007, p.232).

Este ponto de vista toma o paradoxo do mentiroso como algo místico. Foi, justamente, sua incompreensão que gerou a complicação citada e a limitação imposta arbitrariamente. Tarski compara o paradoxo a uma força maligna e a uma energia destrutiva e nos diz que ela foi subjugada, mas como isto é possível se ele simplesmente utilizou-se de subterfúgios que possibilitaram evitá-la? Fica evidenciado, por suas próprias palavras, que ele contornou a situação e tentou divagar a respeito de propósitos "pacíficos e construtivos". Infelizmente ele não está vivo para se posicionar, mas acredito que a comunidade matemática deva refletir seriamente sobre tais pensamentos e construções mal embasadas, pois estas acabam inserindo-se, sorrateiramente, dentro daquilo que deveria ser exato.

"Com respeito à clareza de seu conteúdo, o conceito comum de consequência de modo algum é superior a outros conceitos da linguagem cotidiana. Sua extensão não é precisamente delimitada, e seu uso varia. Qualquer tentativa de harmonizar todas as possíveis tendências vagas, às vezes contraditórias, que estão associadas com o uso desse conceito, certamente está condenada ao fracasso." (TARSKI, 2007, p.235).

"Eu absolutamente não sou da opinião de que, no resultado dessa discussão, o problema de uma definição materialmente adequada do conceito de consequência tenha sido completamente resolvido. Pelo contrário, vejo ainda muitas questões em aberto (...)" (TARSKI, 2007, p.244).

"A definição proposta por Carnap pode ser assim formulada:
A sentença X segue-se logicamente das sentenças da classe K se e somente se a classe constituída de todas as sentenças de K e da negação de X seja contraditória". (TARSKI, 2007, p.240).

Tarski critica o caráter vago da definição de consequência e age como uma espécie de profeta ou legislador ao dizer que todas as tentativas neste sentido estão condenadas ao fracasso. Certamente isto é algo que não condiz com o que deve ser feito no universo do conhecimento, pois trata-se de uma censura velada. Ele não esclarece suas afirmações, apenas trata esta questão de forma superficial, para uma abordagem mais séria sugiro (MOTA, 2020, P.52-54), mas, além das possibilidades matemáticas lá indicadas, uma alternativa simples seria ".x>.y". A definição de Carnap que ele cita pode ser simplificada por K=>X <=> °.(K e °X) o que é equivalente a dizer que não é possível que K ocorra e X não ocorra, trata-se de uma definição escrita de forma diferente, mas que diz a mesma coisa que a definição de implicação lógica.

De acordo com Haack (2002, p.144.), Tarski propõe uma "condição de adequação material": toda definição aceitável de verdade deve gerar todas as instâncias do esquema T ('x' é uma sentença verdadeira <=> x). O x pode ser trocado por qualquer sentença da linguagem formalizada em questão, enquanto 'x' representa o nome da sentença. Uma instância nada mais é do que um caso particular, por exemplo: 'chove' é verdadeira <=> chove. E o que seria uma "condição de adequação material" na prática? Bem, a autora nos diz que isto significa que qualquer definição de verdade, que seja materialmente adequada, deve gerar todos os "casos particulares" (instâncias de T), desta forma, o esquema T não nos daria um significado para "verdadeiro", mas apenas a extensão desta palavra - algo que se aplica a todas definições de verdade aceitáveis nestes termos. Cabe destacarmos que a palavra "material" nos remete a uma visão fisicalista do mundo (o que para mim equivale ao correspondencialismo), mas, de acordo com Haack (2002, p. 158, apud FIELD), Tarski não foi bem sucedido em reduzir a semântica a entes primitivos adequados do ponto de vista físico. Haack continua sua análise crítica e afirma (p.146) que a "condição de adequação material" não é eficaz para eliminar definições "bizarras" de verdade que seriam consistentes com o esquema T.

A CONCEPÇÃO SEMÂNTICA DA VERDADE - ALFRED TARSKI - EDITORA UNESP, 2007- SÃO PAULO.