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segunda-feira, 3 de junho de 2019

CRÍTICA À CONCEPÇÃO DE CURRÍCULO DA CIDADE

CRÍTICA À CONCEPÇÃO DE CURRÍCULO DA CIDADE
LEONARDO CORREIA MOTA



Com base na entrevista concedida por Demerval Saviani ao Jornal da Unicamp, na qual ele afirma que “sem dominar aquilo que os dominantes dominam, os dominados não chegam a se libertar da dominação”, acreditamos que a concepção apresentada pelo Currículo da Cidade, por apresentar uma ideia de educação global que não visa os conteúdos de forma estrita, implicaria a secundarização da importância do saber elaborado. Este seria um ponto crítico, pois, sem estar instrumentalizadas, as massas não teriam a possibilidade entender a realidade, cuja compreensão seria dependente dos conteúdos formais e vice-versa.
A apresentação do currículo o define como um documento plural e democrático desde sua concepção, com função orientadora que afirma que a base da sociedade é a compreensão e melhoria da qualidade de vida. Sua principal função seria garantir a igualdade de direitos de acesso ao conhecimento, sendo não linear(rede interconectada), construtivo, interativo(função socializadora), e definido apenas em termos amplos e gerais, não é um produto, mas sim um processo. O currículo considera o momento histórico e social e se revisa constantemente para se adequar à velocidade das mudanças. Segundo Saviani, à partir da década de 90, a escola teve sua função confundida assumindo uma responsabilidade assistencialista, em decorrência de uma política compensatória que deveria estar a cargo das respectivas secretarias. Por outro lado, o mercado de trabalho tornou-se, simultaneamente a este processo, um espaço relativamente restrito de técnicos e intelectuais, cujas profissões seriam altamente dependentes dos conhecimentos formais. Portanto, a política educacional assistencialista teria como pressuposto que os conhecimentos sistemáticos não seriam necessários devido ao, cada vez mais, limitado número de vagas de trabalho que necessitam deste conhecimento rigoroso. Pensamos que este pensamento, de que o conhecimento formal não é essencial neste quadro atual, se sustenta somente se o considerarmos como sendo algo essencial apenas para a vida profissional. A concepção de currículo menciona a melhoria da qualidade de vida como sendo um de seus pilares, porém, de forma paradoxal, a qualidade de vida é algo que depende diretamente do nível de conhecimento elaborado dominado pela pessoa, isto se evidencia se considerarmos que a maior parte dos colégios de elite priorizam tais conhecimentos em detrimento de todo o resto.
O texto “Indústria Cultural e Educação”, de Bruno Pucci, nos traz uma cronologia dos avanços tecnológicos e seus respectivos impactos sociais, sendo que a uniformização da cultura seria uma das características mais impactantes. A população se coloca de forma passiva frente ao mar de informações se tornando ouvintes pacientes, a internet seria um caso à parte, pois, por não ser ainda totalmente administrada pelo sistema, permite aparentes manifestações fora desta uniformização, por outro lado, com a ampliação de dispositivos conectados com cada vez mais aspectos de nossas vidas e informações, estaríamos renunciando a uma parte de nossa autonomia e intimidade, estando vulneráveis e expostos às articulações daqueles que detém as informações. Mediante o exposto por PUCCI, pensamos que a falta de domínio de conhecimentos formais deixaria as pessoas desprovidas de um senso crítico apurado, pois, a ausência do rigor sobre o qual tais conhecimentos foram erigidos, seria um fator determinante para a formação de pessoas intelectualmente passivas.
No texto “O Processo de Industrialização da Cultura na Sociedade do Espetáculo” de Antônio Á. S. Zuin, o espetáculo é a afirmação da vida humana como simples aparência, um monopólio das imagens, o significado daquilo que fora identificado como experiência humana, se transmuta na sua aparência. Outra ideia estudada pelo artigo é a de que o livre arbítrio garantiria o próprio desenvolvimento do método analítico-dedutivo, assim sendo, supomos que as críticas ao conteúdo formal teriam que considerar que a própria autonomia pode ser a principal causa de sua existência, deste modo, uma formação apurada nos conhecimentos formais impulsionaria a autonomia e criatividade. Porém, ZUIN, ao criticar a violência da exposição dos produtos, ao vivo, autênticos, o pré-prazer e o impressionar a qualquer custo nos remete novamente à uniformização da cultura: “Quem não se destaca, em comparação com aqueles caracterizados como medíocres, literalmente não existe”. Aparentemente, o Currículo da Cidade, vai na contramão da crença da formação burguesa que afirma que o livre-arbítrio implicaria justiça entre dominados e dominantes, logo o indivíduo seria o único responsável por seu destino, porém, ao secundarizar os conteúdos formais os quais são priorizados pelas classes abastadas, tal livre-arbítrio pode se converter em uma formação que optimiza o processo de uniformização da cultura.  
Ainda, segundo o Currículo da Cidade, os professores devem ser os protagonistas para a sua implementação, contextualizando e dando sentido ao processo de ensino-aprendizagem que deve ser centrado nos estudantes, desenvolvendo um pleno diálogo com a realidade, seus interesses necessidades e expectativas, desenvolvendo saberes, atitudes, valores e os preparando para a vida contemporânea, significativa para o Séc.XXI. Saviani, em sua entrevista, alerta para a valorização dos “conhecimentos do dia a dia” que acarretaria tanto numa diminuição da importância dos conteúdos quanto numa formação voltada para a adaptação passiva, cujo principal fruto seria a capacidade de “se virar” e de aceitar, ADORNO&HORKHEIMER alertam para o fato de que tudo se transformou em mercadoria, isto se relaciona com o fato de que o currículo da cidade está em sintonia com a Agenda 2030 da ONU a qual, em princípio, traz um discurso voltado para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável(ODS), no entanto, existem críticas que se fundamentam na aparente contradição entre crescimento macroeconômico e a ideia de sustentabilidade defendida pelos ODS, porém, deve-se registrar que os ODS’s consideram, ao menos em teoria, a sustentabilidade como um princípio a ser seguido. Podemos supor, que esta agenda estaria centrada em objetivos econômicos e sua apropriação, por parte dos currículos educacionais, seria afetada por tais metas. Assim sendo, o texto de PUCCI teria razão ao afirmar que a indústria cultural não seria cultura e nem indústria, sendo que, não é cultura, pois está subordinada à lógica da circulação de capital e não à lógica própria que apregoa a autonomia. Também não seria devidamente denominada de indústria, porque está mais relacionada com a circulação(ou reprodução) do que com a produção, reduzindo, cada vez mais, os espaços de autonomia.

A concepção apresentada pelo currículo pressupõe a educação integral como sendo aquela que procurará desenvolver as esferas intelectual, física, social, emocional e cultural dos estudantes. A definição de educação integral difere de educação de tempo integral, pois, mesmo em um turno de cinco horas de aula, os alunos deverão ter acesso a uma ampla variedade de experiências educativas as quais deverão contribuir para o desenvolvimento global do estudante. Saviani cita a contradição da “maquiagem estatística” promovida pela universalização do ensino fundamental e da promoção automática com finalidade para obtenção de financiamentos do Banco Mundial em detrimento da qualidade do ensino, isto demonstra um problema político-estrutural o qual, desde o princípio, visa o capital em detrimento da educação em si.